HOMENAGEM

Quando a arte fala por quem não pode mais latir

Obra de mais de 40 metros chama atenção para um caso que comoveu Santa Catarina

Quando a arte fala por quem não pode mais latir
Publicado em 03/02/2026 às 7:09

A história do cão comunitário Orelha, vítima de maus-tratos na Praia Brava, em Florianópolis, ganhou uma homenagem que emocionou moradores, turistas e defensores da causa animal. Na manhã de quarta-feira (28), o artista visual Reci Clayton desenhou na areia da Praia da Galheta uma obra com mais de 40 metros, retratando o cachorro que era presença constante e querida por quem frequentava a região.

A intervenção artística, visível a longa distância, nasceu como um gesto de respeito e reflexão. Em suas redes sociais, Clayton explicou que a obra foi dedicada a “um ser puro, livre e querido por muitas pessoas que caminham pela praia” e destacou que a partida de Orelha, marcada pela violência, deve servir como alerta coletivo. Para o artista, a proposta foi transformar dor em memória e memória em consciência.

Com 13 anos de experiência em arte na areia, Reci Clayton revelou que esta foi sua primeira obra em estilo realista. O trabalho levou cerca de duas horas e meia para ser concluído e marcou um novo momento em sua trajetória artística. Segundo ele, a escolha de Orelha como tema não foi por acaso, mas pela força simbólica que o caso ganhou e pela necessidade de provocar reflexão na sociedade.

A homenagem rapidamente repercutiu nas redes sociais e mobilizou moradores da Praia Brava, protetores de animais e pessoas de diferentes partes do país que acompanham o caso. Muitos viram na obra um gesto de carinho, mas também um pedido silencioso por justiça e empatia.

O caso de Orelha ganhou repercussão nacional após a confirmação de que quatro adolescentes são investigados por atos infracionais relacionados à tortura que levou à morte do cachorro. Orelha era cuidado pela comunidade local há cerca de dez anos e, devido à gravidade dos ferimentos, precisou ser submetido à eutanásia.

As investigações da Polícia Civil de Santa Catarina apontam que os atos vão além dos maus-tratos a animais. Os jovens também são investigados por tentativa de afogamento de outro cachorro, conhecido como Caramelo, além de possíveis danos ao patrimônio e crimes contra a honra envolvendo pessoas que atuam na região da Praia Brava.

De acordo com o delegado-geral da Polícia Civil, Ulisses Gabriel, o foco da investigação neste momento é individualizar a conduta de cada um dos envolvidos. O objetivo é esclarecer responsabilidades e garantir que as medidas legais sejam aplicadas de forma justa, diante da gravidade das ações.

A obra efêmera criada por Reci Clayton, apagada naturalmente pelo vento e pelo mar, permanece viva na memória coletiva. Para moradores e defensores dos direitos dos animais, a arte cumpriu um papel fundamental: lembrar que casos como o de Orelha não podem ser esquecidos e que o respeito à vida deve ser uma responsabilidade compartilhada por toda a sociedade.