VITALIDADE

O que faz uma mulher chegar aos 111 anos rindo, abençoando e lembrando o passado

Entre a roça, dez casamentos e um coração cheio de histórias, Dona Arnestina encanta Rodeio

O que faz uma mulher chegar aos 111 anos rindo, abençoando e lembrando o passado
Publicado em 26/09/2025 às 13:22

Em uma casa simples no município de Rodeio, no Vale do Itajaí (SC), vive uma mulher que atravessou mais de um século de transformações e ainda surpreende pela vitalidade. Arnestina Souza de Lima, carinhosamente chamada de Dona Tina, completou 111 anos no último dia 17 de setembro e segue com uma lucidez que conquista quem tem a sorte de conhecê-la.

Nascida em 1914, na cidade de São José do Cerrito, na serra catarinense, Dona Arnestina cresceu em um Brasil que pouco lembrava o atual. Analfabeta, trocou os bancos escolares pela lida no campo para ajudar a família, cultivando a terra com arado de boi, enxada e foice. Enfrentou geadas que destruíam plantações e testemunhou, de perto, as grandes mudanças do último século.

O avanço da tecnologia a encantou desde cedo. Ela recorda com brilho nos olhos o dia em que viu uma televisão pela primeira vez, descrevendo a cena como “mágica, gente falando dentro de uma caixa”. Hoje, além de acompanhar missas e novenas pela TV, diverte-se assistindo ao seriado “Chaves” no celular da irmã, gargalhando como uma criança.

Segundo Dona Tina, o segredo para uma vida tão longa está em “viver em meio à natureza, sem a correria da cidade”. Sua alimentação sempre foi baseada em produtos naturais e orgânicos, cultivados em hortas próprias, sem agrotóxicos. A saúde impressiona: ela toma apenas um remédio para pressão, caminha com independência e mantém o apetite de sempre. As únicas limitações são a surdez e alguns esquecimentos próprios da idade.

A trajetória de Dona Arnestina também é marcada por amores intensos. Conhecida por ter sido “muito namoradeira”, ela se casou dez vezes – todos os maridos já falecidos – e teve um único filho. Hoje, costuma receber os visitantes com um sorriso e uma frase que nunca esquece: “Deus te abençoe!”.

Sua marca de 111 anos a coloca entre os supercentenários, grupo de pessoas que ultrapassam os 110 anos, cada vez mais observado por pesquisadores. Segundo o Censo de 2022, mais de 37 mil brasileiros já superaram a barreira dos 100 anos. Casos como o de Dona Tina se somam a exemplos como o da freira gaúcha Inah Canabarro Lucas e de João Marinho Neto, do Ceará, que também figuraram entre os mais longevos do país.

Entre memórias de uma infância em chão batido, amores vividos e risadas com o humor de Chaves, Dona Tina representa mais que um número raro nas estatísticas: é prova viva de que a longevidade também se mede em histórias, simplicidade e alegria de viver.