ARQUIVAMENTO

MPSC pede arquivamento do caso Orelha após conclusão de que adolescentes não estiveram com o cão

Laudos veterinários apontam infecção óssea grave e ausência de fraturas ou sinais de violência no cão Orelha

MPSC pede arquivamento do caso Orelha após conclusão de que adolescentes não estiveram com o cão
Publicado em 12/05/2026 às 18:54

O caso envolvendo o cão “Orelha”, que mobilizou redes sociais e gerou grande repercussão em Florianópolis no início de 2026, ganhou um novo desdobramento nesta semana. O Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) concluiu que os adolescentes investigados não estiveram com o animal no período da suposta agressão e que a morte do cão ocorreu em decorrência de uma grave doença preexistente.

A manifestação apresentada pelas Promotorias de Justiça possui 170 páginas e foi protocolada junto ao Judiciário na última sexta-feira (8). O documento reúne análises técnicas, laudos periciais, vídeos, imagens e dados obtidos durante a investigação do caso dos cães da Praia Brava.

Segundo o MPSC, a conclusão foi construída após a análise de quase dois mil arquivos digitais, incluindo registros de câmeras públicas e privadas, fotografias, dados de celulares apreendidos e novos depoimentos de testemunhas e adolescentes envolvidos.

Falha na cronologia mudou rumo da investigação

Um dos principais pontos destacados pelas Promotorias de Justiça envolve a reconstituição da linha do tempo dos fatos. Inicialmente, relatórios policiais apontavam que um dos adolescentes investigados teria permanecido por cerca de 40 minutos no mesmo local que o cão Orelha na Praia Brava.

No entanto, a reanálise técnica feita pelo Grupo de Trabalho do MPSC e pela Polícia Científica identificou um descompasso temporal entre os sistemas de monitoramento utilizados na investigação.

As imagens do sistema público Bem-Te-Vi e as câmeras privadas do condomínio onde estava o adolescente apresentavam diferença aproximada de 30 minutos nos horários registrados. A inconsistência foi percebida inclusive pelas condições de luminosidade solar presentes nas imagens.

Com a correção dos horários, o Ministério Público concluiu que o adolescente e o cão estavam distantes cerca de 600 metros um do outro no momento em que a agressão supostamente teria ocorrido.

Ainda conforme a investigação, imagens analisadas mostraram que o cão mantinha plena capacidade motora e caminhava normalmente quase uma hora após o horário inicialmente apontado como sendo o momento das agressões.

Laudos descartam agressão

Os laudos veterinários também foram considerados fundamentais para o pedido de arquivamento.

A perícia realizada após a exumação do corpo do cão não encontrou fraturas, cortes ou lesões compatíveis com agressão humana. O exame apontou, porém, sinais de osteomielite na região maxilar esquerda — uma infecção óssea grave e crônica possivelmente relacionada a problemas periodontais avançados.

As imagens anexadas ao processo mostrariam uma lesão antiga, com inflamação, perda de pelos e descamação na região abaixo do olho esquerdo, compatível com o edema identificado durante o atendimento veterinário.

O MPSC afirmou que o conjunto de provas sustenta que o cão Orelha morreu em razão de um quadro clínico grave, e não por maus-tratos.

Outro ponto citado pelas Promotorias é a morte da cadela “Pretinha”, companheira do cão, poucos dias depois, em decorrência da chamada doença do carrapato, o que reforçaria o cenário de vulnerabilidade sanitária dos animais.

“Ouvi dizer” e redes sociais influenciaram o caso

As Promotorias de Justiça também apontaram que não houve registros visuais ou testemunhais diretos confirmando a presença do cão na faixa de areia da Praia Brava no momento da suposta agressão.

Segundo o documento, grande parte das acusações surgiu a partir de comentários de terceiros, boatos e conteúdos divulgados em redes sociais, com expressões como “ouvi dizer” e “vi nas redes sociais”.

O Ministério Público afirma que a rápida disseminação dessas versões contribuiu para uma definição precoce de autoria, direcionando a investigação com base em suposições.

Caso envolvendo “Caramelo” também foi esclarecido

A investigação também analisou episódios envolvendo cães conhecidos como “Caramelo”. Segundo o MPSC, não houve prática de maus-tratos por parte dos adolescentes.

Em um dos casos, a própria polícia concluiu que os jovens apenas brincavam com o animal na praia, sem qualquer tentativa de afogamento.

Já na situação em que um cão teria sido “arremessado” para dentro de um condomínio, as imagens analisadas mostraram que os adolescentes não tocaram no animal, apenas o induziram a entrar no local, sendo posteriormente retirado pela equipe de segurança.

Pedido de arquivamento e novas apurações

Além do arquivamento dos procedimentos relacionados ao caso Orelha, o Ministério Público solicitou o envio de cópias da investigação à Corregedoria da Polícia Civil para apuração de possíveis irregularidades durante o inquérito.

Também foi solicitado o encaminhamento de documentos para análise de eventual divulgação indevida de informações sigilosas envolvendo adolescente investigado.

O caso ainda terá um novo desdobramento. O MPSC informou que será aberta uma apuração específica, com apoio do CyberGAECO, para investigar eventual monetização de conteúdos falsos relacionados ao episódio nas redes sociais, além da prática de linchamento virtual.