CRIME

Média de 200 casos por dia: SC registrou 401 mil crimes de violência contra a mulher em 5 anos

Dados do Observatório da Violência contra a Mulher mostram predomínio de ameaças e agressões não físicas; especialistas reforçam urgência de políticas públicas de prevenção e acolhimento

Média de 200 casos por dia: SC registrou 401 mil crimes de violência contra a mulher em 5 anos
Foto: Banco de Imagem
Publicado em 11/08/2025 às 7:28

Era madrugada do dia 12 de maio de 2024, no fim de semana do Dia das Mães, quando Camila* foi arrastada pelos pés, jogada ao chão, enforcada e atingida por diversos socos no rosto pelo então namorado, em um apartamento nos Ingleses, Norte de Florianópolis. A agressão foi o primeiro episódio de uma sequência de violência que durou nove meses. “Ele teve oito chances de me matar”, relata a psicóloga, que precisou mudar de estado por medo e ainda busca reconstituir sua vida.

O caso de Camila integra uma estatística alarmante em Santa Catarina: entre janeiro de 2020 e junho de 2025 foram registrados 401.015 crimes de violência doméstica contra a mulher, segundo o Observatório da Violência contra a Mulher (OVM). A média no período foi de 200 registros por dia, contemplando violência física, psicológica, moral e patrimonial — definições previstas pela Lei Maria da Penha.

A Lei nº 11.340, sancionada em 7 de agosto de 2006, marcou um avanço institucional ao definir e tipificar formas de violência doméstica e familiar contra a mulher, além de prever delegacias especializadas, centros de acolhimento, casas-abrigo e medidas protetivas de urgência. A história de Maria da Penha Maia Fernandes — vítima que deu nome à lei — é lembrada como gênese do marco legal, após a condenação do Estado brasileiro em instância internacional por omissão no enfrentamento da violência doméstica.

Violências sem marcas lideram os registros
Além das agressões físicas, a violência psicológica e patrimonial está entre as formas mais recorrentes e difíceis de detectar. O painel do OVM registrou 190.153 casos de ameaça entre 2020 e junho de 2025 — crime enquadrado como violência psicológica pela Lei Maria da Penha. O Anuário de Segurança do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (com dados de 2024) aponta Santa Catarina como o terceiro estado com maior número absoluto de ameaças a mulheres (173.419 casos) e com a pior taxa por 100 mil habitantes na série analisada.

“A violência psicológica é a forma mais sutil, mas é a mais disseminada. Ela vai torturando — ameaça de morte, de fazer mal aos dependentes — e tende a se agravar”, explica a defensora pública Anne Teive Auras, coordenadora do OVM. Para a psicóloga Andréia Isabel Giacomozzi, a violência psicológica corrói a autoestima da vítima e permanece invisível: “Ela não aparece, ela está internalizada… precisamos aprender a definir isso desde criança. Eu vejo que a gente ensina as meninas desde pequena que a agressão é amor.”

Casos mais comuns nos finais de semana; ex-companheiros são majoritários
Os dados apontam também para padrão temporal e perfil do agressor. Segundo a promotora Chimelly Marcon, a maioria dos registros ocorre aos finais de semana, quando há maior convívio e também maior consumo de álcool e drogas. Em muitos episódios o agressor é ex-companheiro ou companheiro — característica que agrava a gravidade e a recorrência das agressões.

Números por tipo de agressão e por região
Do total de 401.015 registros entre janeiro de 2020 e junho de 2025, 120.115 envolvem alguma forma de agressão física. Entre esses, constam:

  • Vias de fato: 25.206
  • Lesão corporal leve: 13.827
  • Lesão corporal grave ou gravíssima: 222
  • Lesão corporal dolosa: 80.905 (dados 2020–2024)

A idade média das vítimas é de 36 anos. Por regiões, o Vale do Itajaí lidera os registros com 103.740 ocorrências em cinco anos; seguido pelo Oeste (84.903), Grande Florianópolis (66.095), Norte (61.837), Sul (58.000) e Serra (26.440).

Feminicídios: mais de 300 mortes nos últimos cinco anos
O painel do OVM contabiliza 305 feminicídios entre janeiro de 2020 e junho de 2025 em Santa Catarina. No recorte até dezembro de 2024, dos autores dos feminicídios: 197 foram presos, 41 cometeram suicídio e 27 seguem foragidos. Em 67,5% dos casos o agressor não tinha boletim de ocorrência prévio por violência doméstica. Os meios mais usados foram arma branca (125), arma de fogo (64) e agressões físicas (21).

Em 2025 (até julho) houve 28 feminicídios; nesse período, em 87% dos casos o autor não possuía boletim de ocorrência anterior. Dos 28, 13 agressores foram presos, 4 estão foragidos e 2 cometeram suicídio. A maioria das vítimas neste recorte era namorada, companheira ou esposa do agressor.

Histórias que mostram padrões de controle e isolamento
Kristel Aurora, 31 anos, advogada peruana que viveu em Florianópolis, descreve uma escalada de violência patrimonial e psicológica que após meses se tornou física. O ex-parceiro exigia senhas bancárias, a trancava em casa e usava a violência para “controlar” decisões como a maternidade — episódios que a fizeram abandonar o país e buscar proteção. “Estava sendo completamente miserável… virei nada”, diz Kristel, que só foi denunciar após obter distância segura.

Especialistas pedem prevenção, acolhimento e rede integrada
Para enfrentar esse quadro, especialistas citam medidas que vão além da punição. A advogada Tammy Fortunato defende campanhas de prevenção nas escolas e empresas, ampliação da rede de acolhimento e criação das chamadas “casas da mulher brasileira” — alojamentos seguros para vítimas e seus filhos, atualmente deficitários. A juíza Naiara Brancher reforça que o enfrentamento exige atuação em rede e investimentos públicos, citando também a importância do monitoramento eletrônico e de sistemas de alerta às vítimas — medidas já previstas em lei recente.

“Não tenha dúvida que fatores estruturais dificultam muito o enfrentamento da violência de gênero. Temos que enfrentar o machismo estrutural e a sensação de impunidade”, conclui a magistrada.

O caminho à frente
Apesar dos avanços legais — da Lei Maria da Penha à Lei do Feminicídio — os números mostram que a adoção de políticas públicas de prevenção, a ampliação da rede de acolhimento e a educação em direitos ainda são urgências no Estado. Especialistas apontam que só com ação integrada — escolas, serviços de saúde, segurança pública, justiça e assistência social — será possível reduzir a recorrência do ciclo de violência que, para muitas mulheres, se prolonga por anos.

Como denunciar (informação útil)
Mulheres em situação de violência podem acionar a Central de Atendimento à Mulher pelo telefone 180 ou, em caso de risco imediato, a Polícia Militar pelo 190.

*Nome preservado.