ESPECIAL DIA DO PROFESSOR

“Me ensina a andar?” a história que marcou para sempre o professor Gio Michels

No Especial do Dia do Professor, conheça a trajetória inspiradora do educador da APAE de Indaial que há 27 anos transforma vidas através do esporte e da inclusão

“Me ensina a andar?” a história que marcou para sempre o professor Gio Michels
Foto: Arquivo Pessoal
Publicado em 15/10/2025 às 12:00

No Especial do Dia do Professor, o Mais Notícias do Vale apresenta a inspiradora história de Gio Michels, professor de Educação Física na APAE de Indaial e treinador de paradesporto. Há 27 anos dedicando sua vida à educação e à inclusão, ele fala sobre sua trajetória, os desafios da profissão e a emoção de ensinar com amor e propósito.

Entrevista
MNDV: O que te motivou a escolher a Educação Física e, especialmente, a trabalhar com o público atendido pela APAE?
Gio:
Sempre fui adepto de qualquer esporte, especialmente os que envolvem bola. As aulas de Educação Física sempre foram as minhas preferidas, pratiquei todos os esportes que tive oportunidade. A escolha pela Educação Física veio pela identificação com o esporte, mesmo sem saber exatamente o que faria profissionalmente. A oportunidade surgiu por um convite da ex-diretora da APAE Indaial, dona Rosângela Araújo (in memoriam), em uma visita à escola. Desde o dia 1º de abril de 1997, estou na Educação Física especial — e a identificação foi imediata.

MNDV: Como é o seu dia a dia com os alunos na APAE? Quais são os maiores desafios e as maiores recompensas desse trabalho tão especial?
Gio:
A parceria é intensa com os alunos. Eles esperam ansiosos pelas aulas de Educação Física! Somos três professores e atendemos desde a estimulação (a partir dos 2 anos) até turmas de adultos acima de 65 anos. Cantamos, dançamos, jogamos, brincamos, nos divertimos.
O maior desafio é lidar com a individualidade de cada educando, pois o processo de negação e aceitação interfere na evolução. A expectativa das famílias é grande, e quando percebem o grau de dificuldade ou deficiência do filho, isso pode ser determinante.
Nem todo dia estamos bem, mas quando entro no portão da escola e já ouço uns gritos lá de baixo — “chupa Corinthians!” — já sei que meu time perdeu (risos). Mas quando é o contrário, me segura, porque não tem perdão! Esses momentos fazem o dia valer a pena. Ultimamente tenho sofrido bastante (risos), mas vale cada bom dia recebido.

MNDV: De que forma o esporte e o movimento contribuem para o desenvolvimento físico, emocional e social dos alunos com deficiência?
Gio:
É essencial! Muitos alunos da APAE são sedentários e têm convivência social restrita. Às vezes, é difícil despertar o interesse pelas atividades, principalmente as que envolvem movimento. Mas, além das aulas de Educação Física, eles participam de caminhadas, fisioterapia, aulas de Arte, informática e atividades da vida diária. A rotina é intensa e o trabalho é conjunto. Ainda assim, a liberdade do pátio sempre é a melhor parte.

MNDV: Há alguma história marcante, conquista ou momento inesquecível vivido com seus alunos ou atletas que te emocionou e ficou na memória?
Gio:
Foram muitos momentos marcantes — abraços, carinhos, viagens, medalhas e sorrisos. Mas um deles me marcou profundamente.
Um menino cadeirante, com paralisia cerebral acentuada, tinha uns 7 ou 8 anos. Um dia, tirei ele da cadeira e coloquei no colchão. Enquanto os colegas brincavam, ele me chamava várias vezes, até que me abaixei para ouvi-lo. Ele disse: “Eu tenho um sonho… me ensina a andar!”
Naquele momento senti tristeza, pois sabia que isso não aconteceria. Levantei ele, coloquei sobre meus pés e caminhamos juntos. Não consegui ensinar ele a andar… mas aquele instante me ensinou o verdadeiro sentido de ser professor.

MNDV: Como você enxerga o papel da família no processo de desenvolvimento e inclusão dos alunos? Essa parceria é importante também no esporte adaptado?
Gio:
É fundamental. A família é o principal pilar. A busca por inclusão e convivência social melhor é essencial, seja para pessoas com deficiência física, intelectual, auditiva ou visual. O esporte é uma ferramenta poderosa de motivação, mas é preciso compreender as individualidades. A confiança entre técnico e família é decisiva para o desenvolvimento do aluno.

MNDV: O que mais te inspira e motiva a continuar atuando na Educação Física e no paradesporto, mesmo diante das dificuldades e desafios da profissão?
Gio:
Minha inspiração vem da felicidade dos alunos. Quando tocam uma canção, murmuram juntos, completam um circuito, acertam o alvo, ou esperam o aplauso do professor e dos colegas — isso é gratificante. São coisas simples para nós, mas que para eles significam o mundo.

MNDV: Como você avalia o apoio e o desenvolvimento da Educação e do Esporte em Indaial na atual gestão?
Gio:
Vivemos um momento histórico para o esporte. A cidade conta com espaços esportivos e de lazer em todos os bairros e é destaque estadual e nacional em várias modalidades.
Somos privilegiados por termos uma piscina pública municipal que atende mais de mil pessoas por semana. Inclusive, cinco atletas da APAE Indaial treinaram lá e representarão Santa Catarina nas Olimpíadas Nacionais das APAEs, em dezembro.
A atual gestão municipal está implantando o Programa Paradesporto Indaial, através da Secretaria de Educação, Secretaria de Saúde, Desenvolvimento Social e FME — um divisor de águas para as pessoas com deficiência.
A APAE também vive um momento de crescimento, com novas salas, reformas e profissionais cada vez mais capacitados. Um trabalho de excelência!

MNDV: Que mensagem você deixaria aos colegas professores e treinadores neste Dia do Professor?
Gio:
Trabalhar com educação é um privilégio. Somos referência para muitos.
Trabalhar com educação especial e ser professor de Educação Física então… somos especiais!
Se alguma criança te pedir para ensinar a andar, ouça e tente — mesmo que pareça impossível. Você não vai se arrepender. “Isso não é só sobre aprender a caminhar.”

A trajetória do professor Gio Michels é um exemplo de amor, sensibilidade e compromisso com a inclusão. Sua história mostra que, mais do que ensinar, o verdadeiro papel do professor é acreditar nas pessoas e inspirar vidas.