INVESTIGAÇÃO

Marcas de luxo são investigadas por ligação com trabalho análogo à escravidão em MG

Relatório aponta que peças comercializadas por lojas de Belo Horizonte eram confeccionadas em oficinas com condições degradantes

Marcas de luxo são investigadas por ligação com trabalho análogo à escravidão em MG
Foto: Auditoria-fiscal do Trabalho/Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT)
Publicado em 14/05/2026 às 7:09

Duas marcas de roupas de luxo de Belo Horizonte estão sendo investigadas por possível ligação com trabalho análogo à escravidão na cadeia de produção de peças comercializadas em Minas Gerais. O caso envolve as empresas Lore Confecções e Anne Fernandes, citadas em relatório da Superintendência Regional do Trabalho.

Segundo a auditoria, roupas vendidas por até R$ 1.143 em lojas de luxo eram confeccionadas em oficinas terceirizadas por valores extremamente baixos. Em um dos casos, uma peça comercializada por mais de R$ 1,1 mil teria sido produzida por apenas R$ 33. Outro conjunto vendido por cerca de R$ 900 custava R$ 53 para ser confeccionado.

O documento ainda está em análise e deverá ser encaminhado ao Ministério Público Federal para avaliação das responsabilidades.

Ao todo, 17 pessoas foram identificadas como parte da mão de obra utilizada nas oficinas investigadas. Destas, 14 foram resgatadas durante as operações, incluindo uma adolescente.

O relatório aponta que a Lore seria “beneficiária direta da mão de obra precarizada”, enquanto a Anne Fernandes teria imposto o modelo de produção às oficinas, que atuariam como intermediadoras de mão de obra barata.

As investigações começaram após denúncias anônimas sobre a presença frequente de crianças em uma das oficinas de costura. Os locais fiscalizados ficavam nas cidades de Betim e Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.

Segundo os auditores fiscais, os trabalhadores — em sua maioria imigrantes bolivianos — viviam e trabalhavam em condições consideradas degradantes. Foram encontrados alojamentos improvisados, cozinhas insalubres, redes elétricas precárias e ambientes com materiais inflamáveis.

O superintendente regional do Trabalho em Minas Gerais, Carlos Calazans, afirmou que os fiscais encontraram situações extremamente precárias durante as operações.

“Encontramos bolivianos, crianças e lugares muito precários de alojamento. Um ambiente insalubre que caracteriza trabalho degradante e trabalho análogo à escravidão”, declarou.

Em uma das oficinas, o Conselho Tutelar identificou violação de direitos de duas crianças. Uma delas relatou que cuidava da irmã mais nova e de um bebê enquanto os adultos trabalhavam.

Na segunda oficina fiscalizada, em Contagem, os auditores encontraram outros 14 trabalhadores bolivianos, incluindo uma adolescente. Segundo o relatório, muitos tinham dívidas com os empregadores relacionadas a passagens e empréstimos, recebendo menos de um salário mínimo mesmo com jornadas superiores a 12 horas diárias.

Os auditores também apontam que as oficinas atuavam quase exclusivamente para as marcas investigadas, sem autonomia econômica. As empresas forneciam materiais, modelos e especificações das peças, enquanto os custos e a mão de obra ficavam sob responsabilidade das confecções terceirizadas.

O relatório ainda cita que representantes das marcas visitavam regularmente os locais para acompanhar a produção das roupas.

Em nota, a Lore informou que não mantém relação com as oficinas citadas desde o fim de 2025 e afirmou que os contratos eram firmados com empresas autônomas para fornecimento de produtos acabados.

Já a empresa responsável pela Anne Fernandes declarou repudiar qualquer forma de trabalho que viole a dignidade humana e informou que encerrou imediatamente o contrato com o fornecedor após tomar conhecimento das fiscalizações.

Os donos das oficinas autuadas poderão receber multas de até R$ 100 mil e ainda responder criminalmente. A responsabilização direta das marcas será definida ao fim do processo administrativo.