FALÊNCIA

Gigante asiática declara falência no Brasil e deixa apenas R$ 100 em conta

Obra bilionária no Ceará termina em colapso financeiro e disputa judicial internacional

Gigante asiática declara falência no Brasil e deixa apenas R$ 100 em conta
Publicado em 22/01/2026 às 7:00

A Posco Engineering & Construction do Brasil, subsidiária do conglomerado sul-coreano Posco, protocolou pedido de autofalência na Justiça do Ceará, desencadeando um dos casos mais emblemáticos do setor de infraestrutura e siderurgia no país.

Responsável pela construção da Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP), considerada uma das maiores obras privadas da história do estado, a empresa deixou um passivo que, segundo credores, pode chegar a R$ 1 bilhão. O pedido judicial ocorre apesar de o contrato da obra — estimado em US$ 5,5 bilhões (cerca de R$ 28 bilhões) — ter sido integralmente pago à construtora.

Criada exclusivamente para executar o projeto da CSP, a Posco Brasil encerrou suas atividades em 2016 sem quitar compromissos com fornecedores, trabalhadores e o fisco. Desde março de 2023, a usina pertence à ArcelorMittal, que adquiriu o ativo por US$ 2,2 bilhões, sem assumir as dívidas deixadas pela construtora.

Autofalência sob contestação

Em setembro de 2025, a empresa alegou uma “crise insanável” para pedir a própria falência, estratégia que suspende cobranças individuais e concentra ações em um único juízo. No processo, a Posco reconheceu R$ 644 milhões em dívidas, distribuídas entre passivos trabalhistas, tributários, intercompany e quirografários.

No entanto, órgãos como a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) e representantes de credores sustentam que o passivo tributário real pode ultrapassar R$ 200 milhões, indicando possível subestimação dos valores declarados.

Ativos mínimos e indignação

O quadro patrimonial apresentado pela empresa causou revolta. Entre os bens listados estão R$ 109,80 em conta-corrente, um Ford Fusion inoperante, um terreno avaliado em R$ 1,1 milhão e pouco mais de R$ 4,8 mil em aplicações financeiras — valores irrisórios frente às dívidas bilionárias.

Credores alegam que recursos foram remetidos ao exterior e que a companhia foi deliberadamente esvaziada no Brasil. Uma decisão de primeira instância já autorizou a desconsideração da personalidade jurídica, permitindo que cobranças alcancem bens da matriz na Coreia do Sul e holdings internacionais do grupo.

Defesa e próximos passos

A administradora judicial atribui a crise a fatores externos, como a recessão de 2014–2016, a pandemia e a concorrência do aço chinês. Alega ainda que a não implementação da segunda fase da CSP, que dobraria a capacidade produtiva, inviabilizou a continuidade da operação. Até o momento, a perícia inicial não apontou fraude direta, mas novas apurações seguem em curso.

Sem sede ativa no Brasil e sem perspectiva de novos recursos, a Posco Brasil sustenta que a falência é o único caminho possível. O caso, contudo, promete se arrastar nos tribunais e pode abrir precedente relevante sobre a responsabilização de multinacionais em grandes projetos no país.