ENTREVISTA

“Dos campos e quadras para o palco: como Ademir Packer une esporte, cultura e gestão pública para ajudar a transformar Indaial”

Gestor que fez história no esporte de Indaial, hoje lidera a Fundação Cultural de Blumenau e a SAF do BEC, além de representar SC na ACES Europe. Em entrevista ao MNDV, ele fala sobre conquistas, desafios e o impacto da gestão pública no dia a dia das pessoas.

“Dos campos e quadras para o palco: como Ademir Packer une esporte, cultura e gestão pública para ajudar a transformar Indaial”
Foto: FIC
Publicado em 19/07/2025 às 14:00

Conhecido por sua atuação incansável no esporte de Santa Catarina, Ademir Packer carrega no currículo quase duas décadas de serviço público, com foco em políticas esportivas de base, inclusão e planejamento. Em 2024, ele assumiu a presidência da Fundação Indaialense de Cultura e, também, passou a comandar a Sociedade Anônima do Futebol (SAF) do tradicional Blumenau Esporte Clube (BEC), encarando o desafio de profissionalizar a gestão e resgatar a identidade do clube. Além disso, atua como Delegado da ACES Europe em Santa Catarina, levando o nome do estado ao cenário internacional.

Nesta entrevista exclusiva ao MNDV, Ademir fala com franqueza sobre a transição do esporte para a cultura, os bastidores do título de Indaial como Cidade Americana do Esporte, os desafios de gerir um clube por meio da SAF e sua rotina intensa dividida entre arte, bola e política pública.

“O palco e o campo têm mais em comum do que se imagina: ambos transformam vidas”

MNDV: O senhor tem uma longa trajetória no esporte, mas assumiu recentemente a presidência da Fundação Indaialense de Cultura. O que motivou essa transição para a área cultural?
ADEMIR PACKER:
Olha, o esporte sempre fez parte da minha vida e me ensinou muita coisa: disciplina, trabalho em equipe, foco… Mas, com o tempo, fui percebendo que a cultura também tem um papel gigante na transformação das pessoas. Ela emociona, resgata histórias, valoriza nossas raízes. Então, essa transição veio de forma bem natural. Eu só troquei o campo ou a quadra pelo palco e pelas manifestações culturais — mas o objetivo continua o mesmo: transformar vidas e fortalecer nossa comunidade.

MNDV: Em sua visão, qual o papel do esporte e da cultura na construção de uma cidade mais humana e conectada socialmente?
ADEMIR PACKER:
Essencial. Eles aproximam as pessoas, fortalecem o sentimento de pertencimento e promovem inclusão. Quando a gente investe nessas áreas, está cuidando da alma da cidade.

MNDV: Após 15 anos como secretário de Esportes de Indaial, o que o senhor considera sua maior conquista para o município?
ADEMIR PACKER:
Sem dúvida, consolidar o esporte como política pública permanente. Criamos uma rede de formação esportiva que integrou escolas, saúde e comunidade. Ver jovens atletas despontando e projetos sociais mudando vidas foi a grande conquista.

MNDV: Como presidente da SAF do Blumenau Esporte Clube, quais os desafios de reerguer um clube tradicional dentro de uma estrutura moderna como a SAF?
ADEMIR PACKER:
É um desafio enorme, mas também uma oportunidade única. O primeiro grande passo é resgatar a identidade do clube e reconquistar a confiança da comunidade, da torcida e dos parceiros. A SAF traz uma nova lógica de gestão — mais profissional, transparente e com foco em resultado — mas isso precisa caminhar junto com a tradição e a paixão que fazem parte do Blumenau.
Outro ponto é estruturar financeiramente o clube, com responsabilidade, criando receitas sustentáveis e investindo na base, em infraestrutura e em tecnologia. Precisamos lidar com a herança de anos difíceis — dívidas, falta de estrutura, ausência de competitividade — mas estamos determinados a transformar o clube num projeto sólido, com metas claras e pé no chão.

“Indaial foi reconhecida internacionalmente por fazer do esporte uma ferramenta de inclusão real”

MNDV: Em 2023, Indaial foi reconhecida como Cidade Americana do Esporte pela ACES Europe. Como o senhor trabalhou nos bastidores para viabilizar esse reconhecimento?
ADEMIR PACKER:
Foi fruto de um trabalho coletivo, mas que exigiu uma articulação intensa. Desde o início, entendemos que o título não era só simbólico — ele representava a valorização real das nossas políticas públicas. Montamos um dossiê técnico, apresentamos nossa rede esportiva, desde escolinhas até eventos maiores. Articulamos apoio institucional, envolvemos federações e comunidades, e mostramos que, em Indaial, o esporte é política de estado, não apenas de governo. Além disso, mantivemos um diálogo próximo com a ACES Europe, respeitando os critérios internacionais e apresentando nossas ações com clareza e responsabilidade. Foi um processo criterioso, mas gratificante. Hoje, o título é de todos os indaialenses, e reforça nosso compromisso com um esporte público, acessível e transformador.

MNDV: Esse título mudou a forma como o município passou a ser visto nacional e internacionalmente?
ADEMIR PACKER:
O título de Cidade Americana do Esporte conferido pela ACES Europe trouxe um novo olhar sobre Indaial, tanto no cenário nacional quanto internacional. A chancela de uma entidade europeia reconhecida valorizou o que já vínhamos construindo há anos: uma política pública de esporte acessível, diversificada e integrada à comunidade. Isso gerou maior visibilidade, atraiu intercâmbios, parcerias e até inspirou outras cidades a seguir caminhos semelhantes. A imagem do município passou a ser associada à inovação, ao bem-estar e à qualidade de vida — elementos que fortalecem a identidade de Indaial dentro e fora do Brasil.

MNDV: Que tipo de legado a ACES deixa para as cidades contempladas?
ADEMIR PACKER:
A ACES deixa um legado que vai muito além do reconhecimento. Para Indaial, ser contemplada como Cidade Americana do Esporte representa a consolidação de uma política pública comprometida com o bem-estar, a inclusão e a qualidade de vida da população. Esse selo internacional reforça a importância de mantermos investimentos contínuos em infraestrutura esportiva, formação de atletas e acesso democrático ao esporte. Além disso, projeta Indaial no cenário internacional, abrindo portas para parcerias, intercâmbios e novos projetos. O maior legado, no entanto, é o sentimento de pertencimento e orgulho que essa conquista gera em cada cidadão.

“A ponte entre municípios e o mundo começa no esporte”

MNDV: O senhor teve uma experiência de um ano como diretor esportivo em Timbó. Quais aprendizados trouxe de lá?
ADEMIR PACKER:
A experiência em Timbó foi extremamente enriquecedora. Lá, tive contato com uma estrutura esportiva bastante organizada e com uma gestão que valorizava tanto o alto rendimento quanto o esporte comunitário. Aprendi muito sobre planejamento estratégico, otimização de recursos e, principalmente, sobre a importância de ouvir as demandas da população para construir políticas públicas mais eficientes. Esses aprendizados trouxemos para Indaial, com o foco em ampliar o acesso ao esporte, integrar ações com a educação e a saúde, e fortalecer os projetos de base. A vivência em outra realidade municipal me deu ainda mais clareza sobre o potencial de transformação social que o esporte tem quando bem gerido.

MNDV: Hoje o senhor é delegado da ACES Europe para Santa Catarina. Como é representar o Estado nesse cenário?
ADEMIR PACKER:
É uma grande honra e também uma enorme responsabilidade. Representar Santa Catarina diante de instituições tão relevantes como a ONU, o Parlamento Europeu e a própria ACES Europe exige preparo, escuta ativa e muito diálogo. Esse papel me permite ser uma ponte entre o cenário internacional e os municípios catarinenses, levando nossas boas práticas e, ao mesmo tempo, trazendo experiências de fora que podem inspirar políticas públicas mais eficientes. É gratificante ver o quanto nossas cidades têm potencial para serem reconhecidas e valorizadas globalmente por meio do esporte como ferramenta de inclusão, saúde e cidadania.

MNDV: Qual o segredo para integrar esporte, saúde, lazer e cultura de forma eficiente nas políticas públicas?
ADEMIR PACKER:
Integração e propósito. Quando secretarias dialogam, quando o foco é o bem-estar da população, as ações fluem. Planejamento, escuta da comunidade e metas claras fazem com que esse discurso se torne ação concreta.

“Cultura é memória e invenção: tem que estar nas ruas, nos palcos e nas escolas”

MNDV: Como o senhor avalia o papel da Fundação de Cultura no resgate da identidade local e no estímulo a novos talentos?
ADEMIR PACKER:
A Fundação tem o papel de ser ponte entre o passado, o presente e o futuro. Resgatar a identidade local é garantir que nossas histórias não se percam. Estimular talentos é plantar sementes para novas narrativas. Cultura é memória e invenção — e nosso papel é mantê-la viva.

MNDV: Como é seu dia típico hoje, conciliando Fundação, BEC e projetos da ACES?
ADEMIR PACKER:
Corrido, mas gratificante. Começo cedo, com reuniões, visitas a espaços culturais, decisões no clube, ligações internacionais, agendas com a ACES… Às vezes falta tempo, mas sobra energia. Gosto de estar perto das pessoas, construir junto. Cada compromisso tem um propósito: melhorar a vida das pessoas.

MNDV: Para além dos cargos, quem é Ademir Packer fora da gestão pública?
ADEMIR PACKER:
Sou um apaixonado pela minha cidade, pelo esporte e pela cultura. Gosto de estar com minha família, caminhar no bairro, conversar com as pessoas. Sou inquieto, mas sou grato. Tudo que faço é movido por propósito e amor à comunidade.

“Servir é um ato de coragem e humildade, não de vaidade”

MNDV: Que conselho o senhor daria a jovens que sonham em contribuir com sua cidade?
ADEMIR PACKER:
Não esperem estar “prontos” para começar. Participem de conselhos, eventos, associações. Se envolvam com propósito. A política precisa de gente com coragem e empatia. Servir é um ato nobre — exige mais escuta do que discurso.

MNDV: Por fim, qual o seu maior sonho hoje para Indaial?
ADEMIR PACKER:
Que Indaial seja referência de cidade humana. Que continue crescendo sem perder sua essência. Que valorize seus talentos, sua diversidade e sua cultura. E que inspire outras cidades a seguirem esse caminho. Esse é o meu maior sonho como cidadão e gestor.

O MNDV agradece ao sr. Ademir Packer pela disponibilidade e generosidade em compartilhar sua trajetória e visão com nossos leitores. Que sua história continue inspirando gestores, atletas, artistas e cidadãos comprometidos com o bem comum.