TRANSFORMAÇÃO
De cemitério esquecido a refúgio verde: a surpreendente transformação do Parque da Luz
Área que já recebeu milhares de sepultamentos virou espaço de convivência após intensa mobilização popular

Quem passeia pelo Parque da Luz, no Centro de Florianópolis, talvez nem imagine que o gramado onde hoje acontecem piqueniques e atividades culturais já foi palco de cerca de 30 mil sepultamentos. Em frente à Ponte Hercílio Luz, o local reúne quase dois séculos de histórias que revelam a evolução – e as disputas – da capital catarinense.
Entre 1840 e a década de 1920, a área conhecida como Colina da Vista Alegre, Morro do Estreito ou Morro do Barro Vermelho funcionou como o primeiro cemitério público de Desterro, antigo nome de Florianópolis. Até então, era comum enterrar pessoas em igrejas, prática proibida por motivos sanitários em 1843. A construção da Ponte Hercílio Luz, inaugurada em 1926, mudou tudo: a presença de um cemitério na entrada da cidade foi considerada inaceitável, e os sepultamentos foram transferidos para o bairro Itacorubi.
Com a desativação, o morro mergulhou em um longo período de abandono. O espaço virou terreno baldio, serviu de abrigo para passantes e até fonte de ossadas usadas por estudantes de Medicina e Odontologia. Relatos orais falam de crianças que brincavam com restos humanos encontrados no local. O isolamento se intensificou na década de 1980, quando a própria ponte foi fechada, reduzindo a circulação de pessoas.
A virada veio da força popular. A partir de 1986, moradores começaram a se mobilizar para salvar a área, associando a luta ao tombamento da ponte e à criação de um parque. Em 1997 nasceu a Associação dos Amigos do Parque da Luz, que organizou eventos artísticos, debates e plantios simbólicos para manter a ideia viva. O esforço rendeu frutos em 1998, quando uma lei municipal transformou o local em Área Verde de Lazer, após a coleta de 10 mil assinaturas.
Hoje, o Parque da Luz é um dos espaços mais queridos de Florianópolis. Com vistas privilegiadas para o mar e para a ponte, abriga parquinho, campo de futebol, trilhas e áreas para convivência. A reabertura da Ponte Hercílio Luz, em 2019, reforçou seu valor turístico, mas também trouxe novos desafios, já que o entorno é alvo constante de especulação imobiliária. Para os frequentadores, porém, o parque representa muito mais do que um espaço de lazer: é um símbolo de resistência urbana e participação comunitária.
Foto: Nanda Honório, NSC Total



