COMEMORAÇÃO

Da fuga à comemoração: ofensiva dos EUA mobiliza venezuelanos em Santa Catarina

Imigrantes buscam notícias de familiares e avaliam futuro incerto do país

Da fuga à comemoração: ofensiva dos EUA mobiliza venezuelanos em Santa Catarina
Publicado em 04/01/2026 às 5:05

A ofensiva militar dos Estados Unidos contra a Venezuela, que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro, provocou forte reação entre venezuelanos que vivem em Santa Catarina. O Estado, que já acolheu mais de 40 mil imigrantes venezuelanos nos últimos anos, tornou-se palco de manifestações, relatos emocionados e reflexões sobre o futuro do país sul-americano.

Na tarde deste sábado (3), dezenas de venezuelanos se reuniram em frente à Prefeitura de Blumenau, em um ato marcado por bandeiras, camisetas estampadas com mensagens de liberdade e celebração pela captura de Maduro. O momento simbolizou, para muitos, o possível fim de um ciclo marcado por crise, repressão e escassez.

Entre os manifestantes estava William Hernández, que deixou a Venezuela há 12 anos após não conseguir mais sustentar a família com o salário de um supermercado. Ele relembra que, nas semanas que antecederam a migração, chegou a comer apenas uma vez por dia para economizar.

Ao cruzar a fronteira, William recorda ter sido hostilizado por um militar venezuelano e, logo em seguida, acolhido por um policial brasileiro. Desde então, nunca mais voltou ao país de origem por medo. Ao saber da captura de Maduro, enviou uma mensagem à prima em Caracas perguntando se aquilo era verdade. A confirmação trouxe choro, alívio e incerteza.

Outro relato marcante veio de Emyli Platz, que soube da notícia durante a madrugada por meio do irmão. A família inteira se reuniu para assistir aos vídeos do ataque. Para ela, o episódio reacendeu uma esperança que parecia perdida: a de um dia poder retornar à Venezuela. Emyli participou do ato vestindo camisetas com a frase “Venezuela livre”.

Manifestações semelhantes também foram registradas em Chapecó e Joinville, demonstrando a mobilização da comunidade venezuelana em diferentes regiões catarinenses.

Contato com familiares e clima de incerteza

Antes mesmo do ato em Blumenau, o economista José Antonio Lara Duran, morador da cidade, buscou contato com familiares que permanecem na Venezuela. Ele soube que um padrinho precisou deixar Caracas às pressas e se refugiar no interior do país.

José deixou a Venezuela em 2016 em busca de estabilidade financeira e melhores condições de vida. Hoje, acompanha os acontecimentos com cautela, torcendo pelo fim do regime que classifica como ditatorial, mas sem esconder a frustração diante das incertezas.

Já a motorista de aplicativo Virginia Cova, que vive em Joinville desde 2021, relata não ter sentido medo com os ataques. Para ela, o sentimento predominante é o de otimismo. Apesar de ainda ter familiares no interior da Venezuela, Virginia acredita que a ação foi direcionada ao alto comando militar e pode abrir caminho para mudanças políticas.

“Medo no início, alívio depois”

A engenheira industrial Mayela Moreno Medina, que vive em Santa Catarina há quase três anos, descreve uma mistura de emoções ao receber a notícia da irmã. O medo inicial deu lugar ao alívio ao saber que seus familiares estavam longe da capital, onde se concentram os ataques.

Ela lembra que deixou a Venezuela em meio a uma crise severa, com dificuldades até para se alimentar. Em Santa Catarina, encontrou acolhimento e oportunidades de trabalho. Agora, acompanha à distância a possibilidade de um novo capítulo na história do país.

Futuro político indefinido

Ainda não há clareza sobre como funcionará o governo da Venezuela após a captura de Nicolás Maduro. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o país será administrado temporariamente pelos EUA até que uma transição considerada adequada possa ocorrer, sem prazo definido.

Enquanto isso, a líder da oposição venezuelana María Corina Machado defendeu que Edmundo González Urrutia seja reconhecido como presidente legítimo da Venezuela, assumindo imediatamente o comando constitucional do país e das Forças Armadas.

Entre os venezuelanos que vivem em Santa Catarina, o sentimento predominante segue dividido entre esperança, cautela e expectativa, diante de um momento que pode redefinir o futuro da nação.

Foto: JOSUÉ DE SOUZA