ESPECIAL DIA DO PROFESSOR

“Cada sorriso é uma vitória”: a missão de ensinar sem barreiras com a professora Ana Laura

Pedagoga e neuropsicopedagoga Ana Laura Zoschke fala sobre sua trajetória na inclusão de alunos com deficiência visual e auditiva

“Cada sorriso é uma vitória”: a missão de ensinar sem barreiras com a professora Ana Laura
Foto: Arquivo Pessoal
Publicado em 14/10/2025 às 18:00

Com 21 anos de atuação, Ana Laura Cunha Zoschke é uma das vozes mais respeitadas quando o assunto é educação inclusiva. Pedagoga e neuropsicopedagoga, atua na E.E.B. Germano Brandes, onde trabalha com alunos com deficiência visual e auditiva, além de exercer o cargo de Vice-Presidente da AMA Indaial e ministrar cursos e palestras voltados à Educação Especial.
Em entrevista ao Mais Notícias do Vale, Ana Laura compartilhou experiências que marcaram sua trajetória, os desafios do ensino inclusivo e a importância de transformar o amor em ferramenta pedagógica.

Entrevista
MNDV: O que te motivou a seguir a carreira na Educação Especial e dedicar sua vida ao ensino de pessoas com deficiência visual e auditiva?
Ana Laura:
Sempre tive o desejo de fazer a diferença na vida de pessoas que enfrentam barreiras para acessar a educação. Desde cedo percebi o quanto a inclusão ainda é um desafio em nossa sociedade. Ao conhecer histórias de superação e também as dificuldades enfrentadas por pessoas com deficiência, senti um chamado para atuar de forma direta, promovendo o acesso ao conhecimento de forma justa e adaptada.
Acredito que todos têm potencial para aprender — o que muda é a forma de ensinar. Por isso, busquei conhecer profundamente o Braile e a Língua Brasileira de Sinais (Libras), unindo técnica e sensibilidade. O sorriso de um estudante ao aprender algo novo, apesar das limitações, é o que me motiva todos os dias.

MNDV: Ao longo desses 21 anos de experiência, o que mais te marcou nessa jornada como educadora especial?
Ana Laura:
Uma história que jamais esquecerei foi a de uma aluna cega que chegou à escola aos 13 anos sem nunca ter estudado. Ela vivia isolada, em uma caminha feita pelo avô, sem acesso à educação. Foi um desafio enorme, mas também uma das experiências mais transformadoras da minha carreira.
Com paciência e carinho, introduzimos o Braile, trabalhamos sua autonomia e adaptamos o ambiente escolar às suas necessidades. Aos poucos, ela foi se abrindo, fazendo amigos e descobrindo suas potencialidades.
Ver essa transformação foi uma prova viva de que a educação tem o poder de devolver dignidade e esperança. Essa aluna me ensinou que nunca é tarde para aprender.

MNDV: Quais são os principais desafios que você enfrenta em sala de aula com alunos cegos e surdos?
Ana Laura:
Com alunos cegos, o maior desafio é garantir o acesso ao conteúdo que muitas vezes está em formato visual. É preciso adaptar tudo: materiais, espaço e até o ritmo da aula.
Já com os surdos, a principal barreira está na comunicação. A Libras é essencial, mas nem todos os colegas ou profissionais da escola a dominam. Isso pode gerar isolamento e dificuldades de interação.
Esses desafios exigem paciência, criatividade e sensibilidade. Mas cada pequeno avanço, cada conquista, faz valer todo o esforço.

MNDV: E quais são as maiores recompensas que essa profissão te proporciona?
Ana Laura:
A maior recompensa está nas transformações que acompanho. Ver um aluno que antes não conseguia se expressar aprender a ler, a se comunicar e a acreditar em si mesmo é algo indescritível.
Cada sorriso, cada sinal em Libras, cada palavra lida em Braile é uma vitória. Além disso, aprendo muito com eles — sobre força, resiliência e amor. Essa troca é o que me faz seguir em frente com gratidão.

MNDV: Como a tecnologia tem ajudado no processo de ensino e inclusão desses estudantes?
Ana Laura:
A tecnologia tem sido uma grande aliada. Para alunos cegos, há leitores de tela, softwares de leitura e impressoras Braile. Já para alunos surdos, aplicativos de tradução de voz em texto, vídeos em Libras e plataformas interativas facilitaram o aprendizado e a comunicação.
Essas ferramentas tornaram o ensino mais acessível, mas é fundamental que os professores estejam preparados para usá-las com propósito e sensibilidade.

MNDV: Você percebe que as escolas e a sociedade têm evoluído em relação à inclusão e acessibilidade?
Ana Laura:
Sim, avançamos muito nos últimos anos. Hoje existe mais conscientização, políticas públicas e recursos adaptados. Mas ainda há um longo caminho.
Muitas escolas não têm estrutura física adequada e os professores precisam de mais formação continuada. A inclusão deve ir além da presença física — é preciso promover acolhimento, respeito e pertencimento. Só assim construiremos uma sociedade verdadeiramente inclusiva.

MNDV: Que valores essa convivência trouxe para sua vida pessoal e profissional?
Ana Laura:
Aprendi a ter mais paciência, empatia e escuta. Cada aluno me ensina algo novo sobre superação e humanidade. Profissionalmente, essa convivência me tornou mais criativa e comprometida com a inclusão real.
Pessoalmente, me transformou em alguém mais sensível às diferenças e mais grata por poder contribuir para um mundo melhor através da educação.

MNDV: Qual mensagem você deixaria aos colegas professores e às famílias sobre a importância da inclusão e do amor na educação especial?
Ana Laura:
A inclusão é um compromisso coletivo. Vai muito além de adaptar materiais — é sobre acolher, respeitar e acreditar no potencial de cada estudante.
Professores, somos agentes de transformação. Famílias, seu apoio e confiança são essenciais.
Quando trabalhamos juntos, com amor e empatia, criamos uma educação que não exclui, mas que celebra a diversidade e transforma vidas.
O amor é o alicerce dessa missão, e a inclusão é o caminho para uma sociedade mais justa e humana.

A trajetória de Ana Laura Zoschke é um exemplo de como o amor pela educação pode romper barreiras e abrir caminhos. Mais do que ensinar conteúdos, ela ensina humanidade, mostrando que a verdadeira inclusão nasce do olhar sensível e do coração disposto a acolher.