POLICLÍNICA
Um investimento, duas visões: a disputa política pela nova policlínica do Médio Vale
Prefeitura de Indaial vê obra como chance de reduzir gastos com pacientes enviados a outros municípios e reforça que custeio será dividido entre União, Estado e cidades atendidas

A construção de uma policlínica regional de R$ 30 milhões no Médio Vale do Itajaí, anunciada pelo Ministério da Saúde, tornou-se exemplo de como prefeitos de um mesmo partido podem enxergar de forma oposta um grande investimento público. O episódio expôs não apenas diferenças de estilo, mas também prioridades de gestão, especialmente quando o tema envolve custos futuros e articulações políticas em tempos de forte polarização.
Blumenau diz “não” e levanta dúvidas sobre custos
A história começou em Blumenau, cidade inicialmente mapeada para receber a unidade. Em 8 de setembro, o prefeito Egidio Ferrari (PL) publicou um vídeo nas redes sociais com trilha sonora em tom de suspense para alertar sobre o que considerava uma “armadilha”. Segundo ele, apesar da construção e da equipagem serem custeadas pelo governo federal, a manutenção mensal da policlínica poderia chegar a R$ 2 milhões, valor que ficaria a cargo da cidade sede.
Ferrari ainda questionou a confiabilidade do investimento, insinuando desconfiança em relação a um projeto bancado por um governo federal comandado pelo PT. “Essa conta vai cair no colo da prefeitura de Blumenau”, afirmou, ressaltando que os repasses federais para procedimentos de alta complexidade estariam defasados desde 2014.
Indaial assume o projeto e aposta em benefícios
Enquanto Blumenau recuava, Indaial enxergou uma oportunidade. O prefeito Silvio César da Silva (PL), correligionário de Ferrari, moveu-se rapidamente para garantir a vinda da policlínica para o município. Em 17 de setembro, Silvio divulgou um vídeo comemorando a aprovação do projeto:
“Com esse novo equipamento, vamos reduzir o tempo de espera para consultas de especialidades, pequenas cirurgias e exames. É com muito orgulho que anuncio que a policlínica regional será construída em Indaial”, declarou.
O movimento envolveu negociações com a deputada federal Ana Paula Lima (PT), porta-voz do governo federal na região, e com o secretário de Estado da Saúde, Diogo Demarchi, que comandará a execução da obra. A secretária de Saúde de Indaial, Jaqueline Mocelin, foi peça-chave na articulação. Ex-secretária de Saúde de Blumenau em 2024, Jaqueline conhecia o projeto e já havia dialogado com autoridades estaduais em pautas de alta complexidade, o que encurtou caminhos e acelerou a aprovação.
Custos serão divididos e não pesam só para Indaial
Ao contrário do que sugeriu o prefeito de Blumenau, a manutenção da policlínica não ficará integralmente nas mãos de Indaial. O custeio seguirá o modelo tripartite do Sistema Único de Saúde (SUS), com divisão entre União, Estado e municípios beneficiados.
Além disso, a Prefeitura de Indaial argumenta que a fatia que caberá ao município será compensada por uma economia já projetada. Hoje, a cidade gasta mensalmente valores significativos para encaminhar pacientes a Blumenau e a outras cidades para realizar exames de média e alta complexidade – despesas que tendem a cair drasticamente quando a estrutura estiver em funcionamento. “O que hoje pagamos para enviar pacientes para outros municípios será em grande parte absorvido aqui. Isso reduz filas, economiza recursos e dá mais conforto à população”, explicou a secretária Jaqueline.
Economia e logística favorável
O terreno escolhido fica na Rua Itu, no bairro Benedito, em uma área de 12 mil metros quadrados. O espaço é plano, de fácil preparo e tem acesso rápido à BR-470 e à SC-477, facilitando o deslocamento de pacientes de cidades vizinhas.
Com a policlínica em funcionamento, Indaial espera reduzir não só custos, mas também o tempo de espera para consultas especializadas e pequenos procedimentos cirúrgicos, aliviando a demanda sobre o hospital local e sobre as unidades regionais.
Críticas perdem força
O vídeo publicado por Egidio Ferrari em Blumenau acabou “envelhecendo mal” por diversos motivos.
- Custeio compartilhado: a despesa não recairá apenas sobre a cidade sede.
- Orçamento robusto: mesmo que arcasse sozinha, Blumenau possui orçamento anual previsto para 2026 de cerca de R$ 4,5 bilhões, com R$ 310 milhões destinados apenas ao Fundo Municipal de Saúde – números que colocam o valor estimado de R$ 2 milhões mensais em perspectiva.
- Falta de reajuste federal: Ferrari criticou a ausência de atualização de repasses desde 2014, mas não mencionou que durante o governo Jair Bolsonaro, do qual é aliado, o problema também não foi resolvido.
- Fatores políticos: enquanto Blumenau politizou a discussão, Indaial priorizou o benefício para a população e não hesitou em aceitar recursos federais, mesmo vindos de um governo adversário.
Impacto regional
A nova policlínica beneficiará não apenas Indaial, mas também cidades vizinhas do Médio Vale, que terão acesso a uma estrutura regionalizada de atendimento. Exames que antes exigiam deslocamentos para Blumenau, Joinville ou Florianópolis poderão ser realizados em um único centro, melhorando a rede de atenção especializada e diminuindo filas.
No fim, Indaial, governada por um prefeito do PL, receberá uma obra financiada por um governo federal do PT. Mas, para Silvio César da Silva, a política partidária não pode se sobrepor à saúde pública:
“Não tenho o direito de negar o recurso por uma questão partidária. O que importa é atender melhor a nossa população”, afirmou.



