ESTELIONATO

Rei dos empréstimos: empresário fantasma criou 334 empresas de fachada e movimentou R$ 2 bilhões em golpes

Jobson Antunes, ex-oficial da Marinha, usava mais de 30 identidades falsas, aliciava moradores de rua como laranjas e chegou a oferecer suborno a delegado da Polícia Federal

Rei dos empréstimos: empresário fantasma criou 334 empresas de fachada e movimentou R$ 2 bilhões em golpes
Publicado em 25/08/2025 às 5:47

Um dos maiores esquemas de estelionato já descobertos pela Polícia Federal no Brasil foi desmontado na última semana. O protagonista é Jobson Antunes Ferreira, de 63 anos, que ficou conhecido como o “rei dos empréstimos”. Ex-oficial da Marinha Mercante, ele acumulava mais de 30 identidades falsas e, ao lado da esposa, Cláudia Márcia, montou uma rede criminosa que registrou 334 empresas fantasmas em nomes de laranjas, movimentando mais de R$ 2 bilhões ao longo de 25 anos.

Identidades múltiplas e empresas de fachada

Segundo as investigações, Jobson dominava a arte da falsificação de documentos, o que lhe permitia assumir dezenas de nomes diferentes — entre eles Afonso Martins, Domingos Sávio e João Batista. A cada nova fraude, ele criava uma empresa fictícia, muitas vezes registrada no mesmo endereço de estabelecimentos legítimos.

A Polícia Federal encontrou casos em que um único mercado abrigava 30 empresas diferentes apenas no papel. Para dar aparência de legalidade, os negócios tinham até vale-refeição para funcionários que nunca existiram.

Laranjas e aliciamento de vulneráveis

Para variar os sócios e manter o esquema, Jobson recrutava laranjas entre moradores de rua e pessoas em situação de vulnerabilidade social, oferecendo em troca cestas básicas, bebidas, dinheiro e até próteses dentárias.

“É Deus no céu e eu na Terra. Eu ajudo: pago dentadura, extração de dente, cachaça, cerveja, cesta básica, tudo eu mando”, dizia em um dos áudios interceptados pela PF.

Apesar disso, alguns laranjas reclamavam de não receber a quantia prometida. Em outro áudio, Jobson chegou a discutir com um deles sobre o atraso no pagamento.

Corrupção e rede de apoio

O esquema não funcionava sozinho. Jobson contava com apoio de contadores e até gerentes de bancos públicos e privados, que recebiam vantagens para liberar empréstimos. Segundo a PF, ele oferecia desde presentes, como celulares e garrafas de uísque, até propinas em dinheiro, geralmente equivalentes a 5% dos valores movimentados.

Em um caso, chegou a apresentar uma empresa fictícia de energia solar para conseguir quase R$ 100 mil em crédito. A lista de supostos clientes incluía até sua própria casa, em frente à Praia de Piratininga, onde não havia nenhuma placa solar.

O modus operandi

O padrão do golpe era sempre o mesmo: após a criação da empresa de fachada e a liberação do crédito, Jobson pagava as primeiras parcelas dos empréstimos, simulando normalidade. Depois de alguns meses, suspendia os pagamentos, alegando dificuldades financeiras.

“Parecia que a empresa tinha tido problemas, mas desde o início tudo era fraude”, explicou o delegado Bruno Bastos Oliveira.

Prisões e tentativas de suborno

Jobson foi preso pela primeira vez em 2024, quando um de seus laranjas foi detido tentando sacar dinheiro com documentos falsos. Na ocasião, o empresário chegou a oferecer dinheiro ao delegado da PF para ser liberado, mas acabou autuado também por corrupção ativa.

Mesmo assim, saiu da cadeia em novembro do mesmo ano com tornozeleira eletrônica e continuou operando o esquema de dentro de casa. Na última quinta-feira (21), foi novamente preso em Niterói, junto com a esposa, em um condomínio de luxo comprado com dinheiro ilícito.

Eles responderão por estelionato qualificado, organização criminosa, lavagem de dinheiro e financiamento fraudulento.

Defesa e posicionamentos oficiais

O advogado do casal, Jair Pilonetto, declarou que ambos são inocentes e que a defesa provará isso no decorrer do processo.

Já a Febraban, entidade que representa os bancos, repudiou o envolvimento de funcionários em fraudes e informou que mantém treinamentos constantes para identificação de operações suspeitas.

Em depoimento à PF, o próprio Jobson resumiu sua trajetória criminosa:

“Não vou dizer que eu sou santo.”

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