ADULTIZAÇÃO
Adultização em debate: denúncias no Disque 100 crescem em SC após vídeo viral
Fenômeno preocupa especialistas e mobiliza famílias, pesquisadores e parlamentares em busca de proteção às crianças e adolescentes

A discussão sobre a chamada adultização infantil ganhou força no Brasil nas últimas semanas, especialmente em Santa Catarina. O termo define a adoção precoce de comportamentos, estéticas e linguagens associadas ao mundo adulto por crianças e adolescentes. A pauta explodiu após a repercussão do vídeo do influenciador Felipe Bressanim Pereira, conhecido como Felca, que denunciou a exploração e a sexualização de menores em conteúdos digitais. O registro viralizou e, até o dia 20 de agosto, já havia ultrapassado 47 milhões de visualizações.
O impacto da denúncia foi imediato: segundo dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), apenas em agosto de 2025 o Disque 100 recebeu cinco denúncias de erotização infantil online em Santa Catarina — mais de um terço de todos os casos do ano no Estado.
Famílias adotam medidas de proteção
Muito antes do termo ganhar visibilidade, famílias catarinenses já vinham adotando medidas para evitar a exposição dos filhos na internet. A gerente comercial Priscila Hauffe, de 37 anos, decidiu junto ao marido não expor o filho Gustavo, hoje com cinco anos, nas redes sociais. Fotos só foram publicadas até os dois anos de idade, e o menino não tem acesso a telas próprias.
— Tentamos nos colocar no lugar dele. Não podemos decidir por uma criança algo que terá reflexos na vida adulta. Quando crescer, ele terá a liberdade de escolha — explica Priscila.
Para ela, blindar o filho da superexposição digital é uma forma de assegurar uma infância completa, sem antecipar etapas.
Situação semelhante vive Adriana Sartori, também de 37 anos, mãe de Gael (13) e Luke (4). A família estabeleceu regras rígidas para o uso de telas: o adolescente ainda não possui redes sociais por opção própria, e o caçula só tem acesso controlado à televisão. O celular de Gael é monitorado por aplicativos de controle parental, que limitam tempo de uso e bloqueiam conteúdos inapropriados.
— Nosso maior medo é que alguém tente obter informações sensíveis ou conduzir os meninos a situações de risco online. Por isso, estamos sempre conversando sobre o que é seguro ou não — afirma Adriana.
Disque 100: denúncias em alta em SC
Segundo o MDHC, Santa Catarina já superou em 2025 o número de denúncias de violência sexual online contra crianças e adolescentes registradas em 2024. Até 17 de agosto, foram 12 casos contra nove do ano anterior. Só em agosto, mês da denúncia viral, foram cinco registros — o maior volume mensal do ano.
Evolução das denúncias em SC em 2025:
- Maio – 1 caso
- Junho – 1 caso
- Julho – 4 casos
- Agosto – 5 casos
As datas revelam uma escalada após a publicação do vídeo de Felca em 6 de agosto, quando quatro denúncias foram registradas nos dias 8, 14, 16 e 17.
“Mais do que denunciar, é preciso agir”
Para a pesquisadora Lynara Ojeda, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a adultização é um risco grave para o desenvolvimento físico, emocional e psicológico. Ela defende que a sociedade deve respeitar as etapas da infância e adolescência.
— Cada fase da vida tem demandas próprias. Quando crianças são induzidas a estéticas ou comportamentos adultos, seja em roupas, maquiagem ou vídeos sexualizados, estamos diante da adultização — alerta.
Lynara defende a criação de políticas públicas que transformem o ambiente digital em um espaço seguro. — Mais do que denunciar, é preciso agir. O Estado, a imprensa e as famílias precisam assumir juntos essa responsabilidade — conclui.
Do viral ao Congresso Nacional
A repercussão do vídeo de Felca impulsionou não só denúncias, mas também o avanço de projetos de lei. Em Brasília, o PL nº 2.628/2022, apelidado de ECA Digital, ganhou urgência na Câmara dos Deputados e foi aprovado nesta semana. O texto, de autoria do senador Alessandro Vieira (MDB-ES), cria regras de proteção a crianças e adolescentes em redes sociais, aplicativos e jogos digitais.
Em Santa Catarina, o deputado Jessé Lopes (PL) apresentou o projeto que cria a Frente de Enfrentamento Local Contra a Adultização (Felca). A proposta prevê a proibição de conteúdos, concursos ou publicidades que sexualizem crianças. Multas podem variar de R$ 2 mil a R$ 50 mil para quem descumprir a lei.
Como denunciar
O Disque 100 funciona todos os dias, 24 horas, incluindo feriados. As ligações são gratuitas de qualquer telefone. Casos também podem ser reportados ao Conselho Tutelar, Ministério Público, Polícia Civil ou diretamente nas plataformas digitais em que os conteúdos forem publicados.



