ENTREVISTA
Sandro Luis Mantau e os bastidores do sucesso dos Cachorrões no Torneio de Verão
Responsável pela montagem do elenco multi-campeão, Mantau conta como o time evoluiu de um grupo de amigos para uma potência do futsal

Poucos nomes estão tão ligados à trajetória dos Cachorrões quanto Sandro Luis Mantau. Desde a origem do time, em 1999, ele esteve à frente da montagem dos elencos que levaram a equipe aos títulos e à idolatria da torcida. Em uma entrevista exclusiva, Sandro compartilha detalhes do início da jornada, desafios enfrentados, contratações marcantes e os bastidores que moldaram um dos clubes mais tradicionais do Torneio de Verão de Indaial.
A seguir, você confere a entrevista completa com o homem que viu os Cachorrões nascerem e se tornarem lenda:
Entrevista com Sandro Luis Mantau
MNDV: Sandro, você acompanhou o Cachorrões desde os primeiros anos? Como era feita a escolha dos jogadores naquela época? O que mais pesava na hora de convidar um atleta?
Mantau: Sim, estou à frente do projeto desde o início, lá em 1999. Naquela época, o time nasceu quase como uma extensão do nosso grupo de amigos, o Clube Cachorrões — eu inclusive fazia parte como jogador. Era tudo muito na base da paixão e da vontade de jogar bola juntos. Eu e o Jean Cunha, estávamos a frente do projeto, completamos o elenco com alguns jogadores da região e, mesmo com toda a simplicidade, conseguimos um terceiro lugar no torneio daquele ano, o que já foi um orgulho enorme pra gente.
Depois disso, demos uma pausa e só voltamos em 2005, mas com uma nova mentalidade. A ideia era montar uma equipe mais estruturada, trazendo jogadores renomados do futsal, mas sem deixar de lado os talentos da nossa região — até porque o regulamento exigia isso. E deu certo: voltamos mais fortes e fomos campeões logo nesse retorno. Foi um momento marcante, daqueles que a gente guarda pra sempre.
MNDV: Quais foram os maiores desafios de montar elencos peça por peça, especialmente quando ainda não havia tantos recursos ou visibilidade?
Mantau: Sempre teve o lado bom e o lado ruim nessa história. Por sermos um time com grande apelo de torcida, muita gente queria vestir a camisa dos Cachorrões — o nome tinha peso, e isso atraía os atletas. Por outro lado, justamente por essa visibilidade, muitos jogadores acabavam pedindo valores mais altos pra fechar com a gente, o que sempre foi um desafio, especialmente em tempos com poucos recursos.
MNDV: Houve alguma contratação histórica, daquelas que você ainda se lembra com orgulho por ter dado certo?
Mantau: Uma contratação marcante para mim, sem dúvida, foi a do pivô Sinôe, em 2019, ano que conquistamos nosso tetracampeonato. Quando o treinador comentou sobre a possibilidade de trazê-lo e me passou o contato, eu jamais imaginaria que aquilo seria, além de uma grande contratação, o início de uma amizade e de um contato que mantemos até hoje.
Pra mim, isso é o que realmente faz tudo valer a pena. Ver nomes de peso vestindo a camisa dos Cachorrões, representando o nosso time com garra e respeito, é algo que não tem preço. Mais do que títulos ou vitórias, essas conexões humanas são a grande conquista.
MNDV: Qual foi o momento em que você percebeu que o time precisava mudar o modelo de montagem e buscar uma equipe já formada do cenário nacional?
Mantau: O momento decisivo foi quando finalmente conseguimos convencer a Fundação de Esportes de que o torneio precisava se profissionalizar, liberando as inscrições para atletas federados. Até então, era muito difícil negociar com jogadores não federados — além de serem amadores, muitas vezes acabavam custando mais caro do que os atletas profissionais.
Com essa mudança no regulamento, abriu-se a possibilidade de trazer uma equipe completa, mais entrosada e com experiência no cenário nacional. Isso representou um novo momento para os Cachorrões, permitindo que a gente elevasse o nível técnico sem abrir mão da nossa identidade.
Nesse momento importante, tivemos também a vinda do Quinho para fortalecer ainda mais o projeto.
MNDV: Como funciona hoje essa escolha de uma equipe nacional para representar os Cachorrões? Quais critérios você leva em conta na hora de selecionar esse grupo?
Mantau: Tivemos três experiências com três times diferentes na Liga Nacional até hoje, e te confesso que é um grande desafio também. No primeiro ano, 2023, contamos com o time do Santo André, que foi uma grata surpresa para nós e nos trouxe o pentacampeonato. Em 2024, buscamos o time do Cascavel, bicampeão da Libertadores e recém-campeão da Liga Nacional. Porém, tivemos uma experiência não tão boa, porque naquele ano reformularam praticamente todo o elenco e chegaram para disputar o torneio praticamente sem nenhuma base, o que resultou na nossa eliminação na semifinal.
Depois dessa experiência negativa, passamos a buscar times que tivessem poder de investimento para garantir a manutenção do elenco, e assim fomos atrás do Jaraguá Futsal. Começamos as conversas ainda em agosto, e na época em que fechamos a parceria nem imaginávamos que eles conquistariam a Liga Nacional e o estadual. Foi um tiro certeiro. Infelizmente, acabamos perdendo na semifinal, coisas do esporte, mas foi uma grande parceria.
MNDV: A transição entre montar o elenco jogador por jogador e trazer um time pronto exigiu mudanças de mentalidade ou estrutura dentro da diretoria?
Mantau: Sim, porque agora negociamos diretamente com os dirigentes, e não mais com os atletas, o que traz muito mais segurança para a gente.
MNDV: Na sua visão, quais foram os impactos positivos dessa mudança para a performance da equipe nos últimos anos?
Mantau: Com certeza, o maior beneficiado com tudo isso foi o público, a torcida. Imagine você, torcedor dos Cachorrões há 20 anos, agora sendo representado pelo atual campeão da Liga, com jogadores que você só via na TV vestindo a sua camisa.
MNDV: Você sente saudade daquela época em que cada jogador era escolhido “a dedo”? O que se perdeu e o que se ganhou com o novo modelo?
Mantau: Saudades a gente tem todo ano, porque cada temporada trazia uma história diferente, desafios e perrengues únicos. Mas, no fim das contas, tudo isso valeu muito a pena — e eu faria tudo de novo sem pensar duas vezes.
MNDV: O que mais te orgulha ao olhar para toda a história dos Cachorrões no Torneio de Verão?
Mantau: O que mais me orgulha ao olhar para toda a história dos Cachorrões no Torneio de Verão é ver a nossa torcida na arquibancada — gente que não ganha nada, nem ingresso, nem camisa — mas que, com todo esforço físico e financeiro, está lá para “dar a vida” pelo nosso time. Isso vale mais do que qualquer conquista que já tivemos. Essa dedicação é o combustível que nos move a continuar ano após ano.
MNDV: Como você enxerga o papel dos Cachorrões hoje dentro do torneio? É um time que inspira os outros?
Mantau: Como falei na resposta anterior, nossa torcida é uma grande motivação para os outros times, e é nisso que a gente se orgulha. Muitos times que estão surgindo agora no cenário de Indaial vêm nos procurar para trocar ideia. Eu gosto muito de compartilhar algumas experiências que acumulamos nesses 20 anos de história.
MNDV: Mesmo contratando um time inteiro, você ainda acompanha de perto o comportamento dos atletas, o comprometimento e a relação com a torcida?
Mantau: Sim, mesmo contratando times completos, acompanhamos de perto o comportamento dos atletas, o comprometimento e a relação com a torcida. Na verdade, a responsabilidade só aumentou, porque agora lidamos com equipes de primeiro escalão do futsal brasileiro. Por isso, precisamos estar preparados para oferecer uma estrutura à altura. É outra pegada: eles chegam com até 10 integrantes na comissão técnica, cada um com sua função, e nosso papel é organizar tudo para que eles possam trabalhar e entregar o melhor desempenho possível.
MNDV: Como está o andamento do projeto para 2026, quais são os planos para os próximos anos?
Mantau: Mesa de negociações está a todo vapor, é uma época onde precisamos definir qual time vai nos representar para dai buscar as parcerias de patrocínio. Mais estamos bem confiantes que nos próximos dias estaremos divulgando o nome da equipe que vai representar os Cachorrões no torneio de verão 2026.
Uma história construída com paixão, suor e torcida
A trajetória dos Cachorrões é mais do que uma coleção de títulos: é a história de um time que nasceu da amizade, cresceu com esforço e conquistou o coração de uma cidade. Sob a liderança de Sandro Luis Mantau, o projeto evoluiu sem nunca perder sua alma. Mesmo diante das transformações, o compromisso com a torcida e com a tradição permanece inabalável. Que venham os próximos capítulos dessa história, com mais surpresas, conquistas e, claro, a vibração das arquibancadas lotadas em Indaial.




