ENTREVISTA
“Dos campos e quadras para o palco: como Ademir Packer une esporte, cultura e gestão pública para ajudar a transformar Indaial”
Gestor que fez história no esporte de Indaial, hoje lidera a Fundação Cultural de Blumenau e a SAF do BEC, além de representar SC na ACES Europe. Em entrevista ao MNDV, ele fala sobre conquistas, desafios e o impacto da gestão pública no dia a dia das pessoas.

Conhecido por sua atuação incansável no esporte de Santa Catarina, Ademir Packer carrega no currículo quase duas décadas de serviço público, com foco em políticas esportivas de base, inclusão e planejamento. Em 2024, ele assumiu a presidência da Fundação Indaialense de Cultura e, também, passou a comandar a Sociedade Anônima do Futebol (SAF) do tradicional Blumenau Esporte Clube (BEC), encarando o desafio de profissionalizar a gestão e resgatar a identidade do clube. Além disso, atua como Delegado da ACES Europe em Santa Catarina, levando o nome do estado ao cenário internacional.
Nesta entrevista exclusiva ao MNDV, Ademir fala com franqueza sobre a transição do esporte para a cultura, os bastidores do título de Indaial como Cidade Americana do Esporte, os desafios de gerir um clube por meio da SAF e sua rotina intensa dividida entre arte, bola e política pública.
“O palco e o campo têm mais em comum do que se imagina: ambos transformam vidas”
MNDV: O senhor tem uma longa trajetória no esporte, mas assumiu recentemente a presidência da Fundação Indaialense de Cultura. O que motivou essa transição para a área cultural?
ADEMIR PACKER: Olha, o esporte sempre fez parte da minha vida e me ensinou muita coisa: disciplina, trabalho em equipe, foco… Mas, com o tempo, fui percebendo que a cultura também tem um papel gigante na transformação das pessoas. Ela emociona, resgata histórias, valoriza nossas raízes. Então, essa transição veio de forma bem natural. Eu só troquei o campo ou a quadra pelo palco e pelas manifestações culturais — mas o objetivo continua o mesmo: transformar vidas e fortalecer nossa comunidade.
MNDV: Em sua visão, qual o papel do esporte e da cultura na construção de uma cidade mais humana e conectada socialmente?
ADEMIR PACKER: Essencial. Eles aproximam as pessoas, fortalecem o sentimento de pertencimento e promovem inclusão. Quando a gente investe nessas áreas, está cuidando da alma da cidade.
MNDV: Após 15 anos como secretário de Esportes de Indaial, o que o senhor considera sua maior conquista para o município?
ADEMIR PACKER: Sem dúvida, consolidar o esporte como política pública permanente. Criamos uma rede de formação esportiva que integrou escolas, saúde e comunidade. Ver jovens atletas despontando e projetos sociais mudando vidas foi a grande conquista.
MNDV: Como presidente da SAF do Blumenau Esporte Clube, quais os desafios de reerguer um clube tradicional dentro de uma estrutura moderna como a SAF?
ADEMIR PACKER: É um desafio enorme, mas também uma oportunidade única. O primeiro grande passo é resgatar a identidade do clube e reconquistar a confiança da comunidade, da torcida e dos parceiros. A SAF traz uma nova lógica de gestão — mais profissional, transparente e com foco em resultado — mas isso precisa caminhar junto com a tradição e a paixão que fazem parte do Blumenau.
Outro ponto é estruturar financeiramente o clube, com responsabilidade, criando receitas sustentáveis e investindo na base, em infraestrutura e em tecnologia. Precisamos lidar com a herança de anos difíceis — dívidas, falta de estrutura, ausência de competitividade — mas estamos determinados a transformar o clube num projeto sólido, com metas claras e pé no chão.
“Indaial foi reconhecida internacionalmente por fazer do esporte uma ferramenta de inclusão real”
MNDV: Em 2023, Indaial foi reconhecida como Cidade Americana do Esporte pela ACES Europe. Como o senhor trabalhou nos bastidores para viabilizar esse reconhecimento?
ADEMIR PACKER: Foi fruto de um trabalho coletivo, mas que exigiu uma articulação intensa. Desde o início, entendemos que o título não era só simbólico — ele representava a valorização real das nossas políticas públicas. Montamos um dossiê técnico, apresentamos nossa rede esportiva, desde escolinhas até eventos maiores. Articulamos apoio institucional, envolvemos federações e comunidades, e mostramos que, em Indaial, o esporte é política de estado, não apenas de governo. Além disso, mantivemos um diálogo próximo com a ACES Europe, respeitando os critérios internacionais e apresentando nossas ações com clareza e responsabilidade. Foi um processo criterioso, mas gratificante. Hoje, o título é de todos os indaialenses, e reforça nosso compromisso com um esporte público, acessível e transformador.
MNDV: Esse título mudou a forma como o município passou a ser visto nacional e internacionalmente?
ADEMIR PACKER: O título de Cidade Americana do Esporte conferido pela ACES Europe trouxe um novo olhar sobre Indaial, tanto no cenário nacional quanto internacional. A chancela de uma entidade europeia reconhecida valorizou o que já vínhamos construindo há anos: uma política pública de esporte acessível, diversificada e integrada à comunidade. Isso gerou maior visibilidade, atraiu intercâmbios, parcerias e até inspirou outras cidades a seguir caminhos semelhantes. A imagem do município passou a ser associada à inovação, ao bem-estar e à qualidade de vida — elementos que fortalecem a identidade de Indaial dentro e fora do Brasil.
MNDV: Que tipo de legado a ACES deixa para as cidades contempladas?
ADEMIR PACKER: A ACES deixa um legado que vai muito além do reconhecimento. Para Indaial, ser contemplada como Cidade Americana do Esporte representa a consolidação de uma política pública comprometida com o bem-estar, a inclusão e a qualidade de vida da população. Esse selo internacional reforça a importância de mantermos investimentos contínuos em infraestrutura esportiva, formação de atletas e acesso democrático ao esporte. Além disso, projeta Indaial no cenário internacional, abrindo portas para parcerias, intercâmbios e novos projetos. O maior legado, no entanto, é o sentimento de pertencimento e orgulho que essa conquista gera em cada cidadão.
“A ponte entre municípios e o mundo começa no esporte”
MNDV: O senhor teve uma experiência de um ano como diretor esportivo em Timbó. Quais aprendizados trouxe de lá?
ADEMIR PACKER: A experiência em Timbó foi extremamente enriquecedora. Lá, tive contato com uma estrutura esportiva bastante organizada e com uma gestão que valorizava tanto o alto rendimento quanto o esporte comunitário. Aprendi muito sobre planejamento estratégico, otimização de recursos e, principalmente, sobre a importância de ouvir as demandas da população para construir políticas públicas mais eficientes. Esses aprendizados trouxemos para Indaial, com o foco em ampliar o acesso ao esporte, integrar ações com a educação e a saúde, e fortalecer os projetos de base. A vivência em outra realidade municipal me deu ainda mais clareza sobre o potencial de transformação social que o esporte tem quando bem gerido.
MNDV: Hoje o senhor é delegado da ACES Europe para Santa Catarina. Como é representar o Estado nesse cenário?
ADEMIR PACKER: É uma grande honra e também uma enorme responsabilidade. Representar Santa Catarina diante de instituições tão relevantes como a ONU, o Parlamento Europeu e a própria ACES Europe exige preparo, escuta ativa e muito diálogo. Esse papel me permite ser uma ponte entre o cenário internacional e os municípios catarinenses, levando nossas boas práticas e, ao mesmo tempo, trazendo experiências de fora que podem inspirar políticas públicas mais eficientes. É gratificante ver o quanto nossas cidades têm potencial para serem reconhecidas e valorizadas globalmente por meio do esporte como ferramenta de inclusão, saúde e cidadania.
MNDV: Qual o segredo para integrar esporte, saúde, lazer e cultura de forma eficiente nas políticas públicas?
ADEMIR PACKER: Integração e propósito. Quando secretarias dialogam, quando o foco é o bem-estar da população, as ações fluem. Planejamento, escuta da comunidade e metas claras fazem com que esse discurso se torne ação concreta.
“Cultura é memória e invenção: tem que estar nas ruas, nos palcos e nas escolas”
MNDV: Como o senhor avalia o papel da Fundação de Cultura no resgate da identidade local e no estímulo a novos talentos?
ADEMIR PACKER: A Fundação tem o papel de ser ponte entre o passado, o presente e o futuro. Resgatar a identidade local é garantir que nossas histórias não se percam. Estimular talentos é plantar sementes para novas narrativas. Cultura é memória e invenção — e nosso papel é mantê-la viva.
MNDV: Como é seu dia típico hoje, conciliando Fundação, BEC e projetos da ACES?
ADEMIR PACKER: Corrido, mas gratificante. Começo cedo, com reuniões, visitas a espaços culturais, decisões no clube, ligações internacionais, agendas com a ACES… Às vezes falta tempo, mas sobra energia. Gosto de estar perto das pessoas, construir junto. Cada compromisso tem um propósito: melhorar a vida das pessoas.
MNDV: Para além dos cargos, quem é Ademir Packer fora da gestão pública?
ADEMIR PACKER: Sou um apaixonado pela minha cidade, pelo esporte e pela cultura. Gosto de estar com minha família, caminhar no bairro, conversar com as pessoas. Sou inquieto, mas sou grato. Tudo que faço é movido por propósito e amor à comunidade.
“Servir é um ato de coragem e humildade, não de vaidade”
MNDV: Que conselho o senhor daria a jovens que sonham em contribuir com sua cidade?
ADEMIR PACKER: Não esperem estar “prontos” para começar. Participem de conselhos, eventos, associações. Se envolvam com propósito. A política precisa de gente com coragem e empatia. Servir é um ato nobre — exige mais escuta do que discurso.
MNDV: Por fim, qual o seu maior sonho hoje para Indaial?
ADEMIR PACKER: Que Indaial seja referência de cidade humana. Que continue crescendo sem perder sua essência. Que valorize seus talentos, sua diversidade e sua cultura. E que inspire outras cidades a seguirem esse caminho. Esse é o meu maior sonho como cidadão e gestor.
O MNDV agradece ao sr. Ademir Packer pela disponibilidade e generosidade em compartilhar sua trajetória e visão com nossos leitores. Que sua história continue inspirando gestores, atletas, artistas e cidadãos comprometidos com o bem comum.



