INVESTIGAÇÃO
Bilhete manuscrito é peça-chave em investigação sobre fraude na merenda em Blumenau
Mensagens e documentos indicam favorecimento à empresa vencedora da alimentação escolar entre 2021 e 2024

Uma investigação do Ministério Público de Santa Catarina revelou novos detalhes sobre um suposto esquema de corrupção envolvendo a merenda escolar de Blumenau. Um bilhete escrito à mão, contendo nomes de empresas habilitadas em uma licitação e informações consideradas sigilosas, aparece como uma das principais provas reunidas pelo Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) na operação Arbóreo.
A investigação aponta que o esquema teria ocorrido entre 2021 e 2024 e envolveria servidores públicos da prefeitura de Blumenau e representantes da empresa paranaense Risotolândia, responsável durante anos pela alimentação escolar do município. Segundo o Ministério Público, o valor pago em propinas pode chegar a R$ 3,6 milhões.
A operação Arbóreo foi deflagrada no último dia 7 de maio, com cumprimento de nove mandados de busca e apreensão em Blumenau, Indaial e Araucária, no Paraná. As investigações começaram a partir de provas obtidas em outra apuração, relacionada ao suposto cartel de obras públicas em Blumenau.
De acordo com o relatório do Gaeco, os investigados no núcleo público seriam César Botelho, então chefe de gabinete do prefeito Mário Hildebrandt; Ronaldo “Roni” Wan-Dall, diretor de gabinete; e César Poltronieri, ex-secretário da Fazenda do município. Eles são suspeitos de atuar em conjunto para favorecer a Risotolândia em uma licitação milionária da alimentação escolar.
As investigações indicam que, em 2021, houve interferência direta na estrutura da licitação. Mensagens obtidas pelo Ministério Público mostram que Wan-Dall teria alertado Botelho sobre um parecer jurídico da Procuradoria-Geral do Município que recomendava o fracionamento do contrato para aumentar a competitividade entre empresas interessadas.
Na sequência, segundo o MP, Wan-Dall encaminhou contrapontos defendendo que a licitação ocorresse em lote único e por pregão presencial, modelo que acabou sendo adotado posteriormente pela prefeitura.
Ainda conforme a investigação, mesmo durante período de férias, Wan-Dall teria acompanhado o andamento do processo e mantido contato frequente com Botelho. Em uma das mensagens, Botelho escreveu: “Manda eles entrarem com recurso”, trecho interpretado pelos investigadores como uma referência à empresa Risotolândia.
O ponto considerado mais sensível pela investigação ocorreu em março de 2022. Segundo o Gaeco, Botelho teria enviado a Wan-Dall um bilhete manuscrito contendo a lista de empresas habilitadas no certame, incluindo a Risotolândia. No dia seguinte, valores atribuídos às propostas das concorrentes também teriam sido compartilhados.
Para o Ministério Público, essas informações privilegiadas teriam permitido que a empresa apresentasse o menor valor e garantisse a vitória na licitação, cujo contrato ultrapassava R$ 35 milhões.
O relatório do Gaeco afirma ainda que, após a assinatura do contrato, surgiu um padrão de movimentações consideradas suspeitas, incluindo cálculos de porcentagens sobre valores pagos à empresa, viagens frequentes ao Paraná e encontros reservados entre investigados.
Na avaliação do Ministério Público, César Botelho atuaria como articulador do grupo dentro da estrutura pública, enquanto Wan-Dall seria responsável pelo contato com representantes da empresa e pela logística relacionada à suposta coleta de propina. Poltronieri aparece como suporte técnico-financeiro.
Do lado empresarial, o MP cita Carlos Gusso, proprietário da Risotolândia, e Elizete Furtado, consultora da empresa, como possíveis responsáveis pela ligação entre o núcleo público e os recursos ilícitos investigados.
No ano passado, a prefeitura de Blumenau rompeu o contrato com a empresa após o valor previsto para execução do serviço ser totalmente utilizado antes do prazo final. A Procuradoria-Geral do Município recomendou que o contrato não fosse renovado, levando o município a contratar outra empresa emergencialmente.
Em nota enviada ao NSC Total, a Risotolândia afirmou que Carlos Gusso se afastou da administração da empresa em 2020 e deixou formalmente os atos societários em 2021. A empresa também informou que Elizete Furtado se aposentou em 2022.
A nota ressalta ainda que a existência da investigação não representa conclusão definitiva sobre responsabilidades ou culpabilidade e reafirma compromisso com ética, integridade e transparência.
César Poltronieri declarou que não irá se manifestar neste momento inicial das investigações. Já o ex-prefeito Mário Hildebrandt publicou vídeo nas redes sociais afirmando que sempre prezou pela transparência na gestão e que chegou a determinar auditorias externas sobre irregularidades identificadas durante seu mandato. Ele também disse estar à disposição da Justiça.
FONTE: NSC Total
Foto: Gaeco / NSC Total



