POLÍTICA
MDB completa 60 anos com história marcada por resistência e poder em SC
Sigla nasceu como oposição controlada e se consolidou como protagonista político

O Movimento Democrático Brasileiro (MDB) completa 60 anos carregando uma característica que ajuda a explicar sua longevidade na política nacional: nasceu como uma oposição consentida durante a ditadura militar e, ao longo das décadas, transformou-se em uma das estruturas de poder mais duradouras do país.
A origem da sigla remonta ao Ato Institucional nº 2, que extinguiu os partidos políticos existentes e instituiu o bipartidarismo no Brasil. De um lado, a Aliança Renovadora Nacional (Arena), base de sustentação do regime militar. Do outro, o MDB, autorizado a existir como uma espécie de válvula institucional para canalizar a insatisfação popular.
Embora concebido como uma oposição controlada, o MDB rapidamente se tornou abrigo de lideranças que não aceitavam o silêncio imposto pelo regime.
Em Santa Catarina, o partido foi oficializado em 23 de abril de 1966, no chamado primeiro gabinete, sob a presidência de Doutel de Andrade, deputado federal eleito pelo PTB em 1962 e cassado após o golpe militar de 1964.
A base inicial do MDB catarinense foi formada por políticos oriundos do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), por dissidentes do Partido Social Democrático (PSD) contrários ao regime, além de integrantes do Partido Comunista Brasileiro (PCB), que encontraram na sigla uma forma de atuação legal.
O primeiro prefeito ligado ao MDB foi Dejandir Dalpasquale, eleito em Campos Novos ainda pelo PTB e posteriormente filiado ao MDB após a extinção do partido. Sua trajetória incluiu mandatos como deputado estadual e federal.
Ainda em 1966, o MDB catarinense disputou sua primeira eleição parlamentar, já que os governadores eram indicados pela ditadura. Na ocasião, foram eleitos três deputados federais: Lígia Doutel de Andrade, a mais votada da sigla com 43.965 votos, além de Paulo Macarini e Eugênio Doin Vieira.
Posteriormente, Lígia Doutel de Andrade participaria da fundação do PDT ao lado de Leonel Brizola e disputaria o governo catarinense em 1982.
Todos os parlamentares eleitos naquele pleito tiveram seus mandatos cassados em 1968, com a decretação do Ato Institucional nº 5 (AI-5), um dos instrumentos mais duros do regime militar.
Na mesma eleição, o MDB também elegeu onze deputados estaduais, entre eles Pedro Ivo Campos, que mais tarde, em 1986, se tornaria o primeiro governador emedebista de Santa Catarina, e Manoel Dias, que também participaria da fundação do PDT e viria a ser ministro do Trabalho no governo Dilma Rousseff.
Em 1970, o partido ampliou sua presença ao eleger quatro deputados federais: Pedro Ivo Campos, Francisco Libardoni, Jaison Barreto e Laerte Vieira. Também conquistou onze cadeiras na Assembleia Legislativa, incluindo Delfim de Pádua Peixoto, que posteriormente presidiu a Federação Catarinense de Futebol até sua morte no acidente aéreo que vitimou a Associação Chapecoense de Futebol, em 2016, na Colômbia.
O avanço político seguiu na década de 1970. Em 1974, o MDB elegeu seu primeiro senador por Santa Catarina, Evilásio Vieira. Em 1978, foi a vez de Jaison Barreto conquistar uma vaga no Senado, embora tenha sido derrotado na disputa pelo governo estadual em 1982 por Esperidião Amin.
O auge eleitoral ocorreu em 1986, quando o MDB conquistou uma vitória expressiva no estado. Naquele ano, elegeu o governador Pedro Ivo Campos, o vice Casildo Maldaner, os senadores Dirceu Carneiro e Nelson Wedekin, além de nove deputados federais e 19 estaduais.
Luiz Henrique, o recordista de eleições
A trajetória do Luiz Henrique da Silveira é um dos capítulos mais marcantes da história do MDB catarinense. Sua carreira política teve início em 1970 e o transformou no filiado com maior número de disputas e vitórias eleitorais dentro do partido.
Após iniciar como suplente na Assembleia Legislativa, foi eleito deputado federal em 1974 e reeleito em 1978. Em 1976, conquistou pela primeira vez a prefeitura de Joinville. Voltaria a ser eleito deputado federal em 1982, renovando o mandato em 1986, 1990 e 1994.
Em 1992, sofreu sua única derrota em eleições majoritárias ao disputar novamente a prefeitura de Joinville, sendo vencido por Wittich Freitag. Recuperou-se politicamente ao vencer as eleições municipais em 1996 e 2000.
Em 2002, renunciou à prefeitura para disputar o governo do Estado, sendo eleito e reeleito em 2006. Em 2010, chegou ao Senado, onde permaneceu até sua morte, em 2015.
Cinco emedebistas no comando do Estado
O MDB consolidou sua força em Santa Catarina ao eleger cinco governadores ao longo de sua história. Além de Luiz Henrique, que governou por dois mandatos, destacam-se:
- Pedro Ivo Campos (1986);
- Casildo Maldaner (1990), que assumiu após a morte de Pedro Ivo;
- Paulo Afonso Vieira (1994);
- Eduardo Pinho Moreira, que assumiu em 2006 e novamente em 2018 após renúncias de governadores.
Os campeões de votos
Entre os nomes mais votados da história do MDB em Santa Catarina estão Luiz Henrique, Mauro Mariani e Valdir Cobalchini.
Luiz Henrique foi o deputado federal mais votado do partido em quatro eleições consecutivas: 1982, 1986, 1990 e 1994. Mauro Mariani liderou as votações para deputado estadual em 2002 e para federal em 2006, 2010 e 2014, quando alcançou 195.492 votos — recorde da sigla.
Já Valdir Cobalchini foi o mais votado para deputado estadual em 2010, 2014 e 2018, além de liderar a votação para deputado federal em 2022.
Outro destaque é Antídio Lunelli, que se tornou o deputado estadual mais votado da história do MDB, com 74.500 votos em 2022. Em seguida aparece Herneus de Nadal, com 72.093 votos em 2006.
Mulheres no MDB
A participação feminina na história do MDB catarinense ainda é marcada por números reduzidos, mas com nomes relevantes. Em 1966, Lígia Doutel de Andrade tornou-se a primeira e única mulher eleita deputada federal pelo partido no estado.
Somente em 2006 o MDB elegeu sua primeira deputada estadual, Ada de Luca, reeleita em 2010 e 2014. Em 2014, Dirce Heiderscheidt também conquistou uma vaga na Assembleia Legislativa.
Atualmente, o partido conta com a senadora Ivete Appel da Silveira, viúva de Luiz Henrique, que assumiu após ser eleita suplente na chapa de Jorginho Mello em 2018.
Seis décadas após sua criação, o MDB segue como uma das principais forças políticas de Santa Catarina e do Brasil, mantendo influência tanto no Executivo quanto no Legislativo e atravessando diferentes períodos da história política nacional.
Na Imagem: Lígia Doutel de Andrade: primeira mulher eleita no MDB de Santa Catarina



