POLÍTICA

Direito dos pais ou interferência? Lei de gênero em SC divide opiniões

Debate expõe divergência entre autonomia familiar e atuação pedagógica das escolas

Direito dos pais ou interferência? Lei de gênero em SC divide opiniões
Foto: Divulgação / Alesc
Publicado em 14/04/2026 às 7:15

A recente sanção da lei estadual que garante aos pais o direito de vetar a participação dos filhos em atividades pedagógicas relacionadas a gênero e sexualidade reacendeu o debate sobre os limites da atuação escolar em Santa Catarina.

Aprovada pela Assembleia Legislativa e sancionada pelo governador Jorginho Mello, a norma estabelece que temas como identidade de gênero, orientação sexual e diversidade só poderão ser abordados com autorização prévia dos responsáveis.

A medida surge em um contexto de crescente discussão nacional sobre o papel da escola na formação dos alunos e o espaço das famílias nesse processo. Para apoiadores, a legislação representa um avanço ao reconhecer o direito dos pais de participarem ativamente das decisões educacionais, especialmente em temas considerados sensíveis.

Autonomia familiar no centro do debate

A principal premissa da lei é clara: garantir que as famílias tenham controle sobre conteúdos que envolvem valores, formação moral e aspectos pessoais dos estudantes. Nesse sentido, a norma não impede o debate, mas estabelece que ele ocorra com transparência e consentimento.

Defensores da proposta argumentam que a educação é uma responsabilidade compartilhada, mas que cabe às famílias a palavra final em questões que envolvem convicções pessoais, culturais e religiosas.

A exigência de comunicação prévia por parte das escolas também é vista como um mecanismo de maior organização e clareza no ambiente educacional, evitando conflitos e promovendo um relacionamento mais direto entre instituições de ensino e responsáveis.

Críticas e contestação jurídica

A lei, no entanto, enfrenta oposição. A deputada estadual Luciane Carminatti (PT) protocolou uma representação no Ministério Público pedindo a declaração de inconstitucionalidade da norma.

Entre os argumentos apresentados, estão possíveis conflitos com diretrizes nacionais da educação e a interpretação de que a medida poderia limitar o acesso dos alunos a determinados conteúdos.

Apesar disso, há quem veja a reação como parte de uma divergência ideológica mais ampla sobre o papel da escola. Para os defensores da lei, a crítica ignora o direito legítimo das famílias de participar da formação dos filhos e reforça uma visão centralizada da educação.

Debate vai além da sala de aula

O tema também levanta uma discussão mais ampla sobre como assuntos complexos devem ser tratados no ambiente escolar. Enquanto críticos defendem maior liberdade pedagógica, apoiadores da lei sustentam que transparência e consentimento são fundamentais para evitar conflitos e garantir segurança jurídica às instituições.

Outro ponto destacado é que a lei não elimina o debate social sobre esses temas, mas busca reorganizar sua abordagem dentro das escolas, respeitando diferentes visões e contextos familiares.

Entre o diálogo e os limites

A nova legislação coloca Santa Catarina no centro de um debate nacional que envolve educação, ოჯახ e autonomia. Mais do que uma disputa jurídica, a discussão reflete diferentes concepções sobre o papel da escola na sociedade.

Para os que apoiam a medida, o caminho não está na imposição de conteúdos, mas na construção de um modelo que respeite as famílias, promova o diálogo e estabeleça limites claros entre o ensino técnico e a formação de valores.

Nesse cenário, a lei surge como um instrumento de equilíbrio — ainda que controverso — entre o direito de educar e o direito de decidir.