RARIDADE
Produzido a cada dois anos, mel catarinense ganha o mundo, mas é desprezado no Brasil
Cultura brasileira favorece mel claro e deixa de lado um dos mais ricos do mundo

Um dos produtos mais raros da apicultura mundial é produzido quase exclusivamente no Sul do Brasil, mas segue pouco valorizado no próprio país. O mel de melato da bracatinga, concentrado em Santa Catarina, tem características únicas, produção limitada e alto valor nutricional, mas mais de 90% de sua produção é exportada, principalmente para a Europa.
Diferente do mel tradicional, que é feito a partir do néctar das flores, o mel de melato tem origem na seiva da árvore conhecida como bracatinga. O processo começa com insetos chamados cochonilhas, que se alimentam da seiva e liberam um líquido açucarado, o melato, coletado pelas abelhas da espécie Apis mellifera e transformado em mel.
A produção ocorre apenas a cada dois anos, dependendo do ciclo biológico desses insetos e das condições climáticas. Em períodos favoráveis, uma colmeia pode produzir até 80 quilos. Em anos ruins, a produção cai drasticamente.
O epicentro dessa atividade está na Serra Catarinense, com destaque para o município de São Joaquim, onde há grande concentração de bracatingas e tradição na apicultura. Em 2021, o produto recebeu o selo de Indicação Geográfica (IG) Planalto Sul Brasileiro, reconhecendo sua origem e qualidade.
Apesar do reconhecimento internacional, o consumo no Brasil ainda é baixo. A explicação está na cultura: o mercado brasileiro prefere méis claros e mais doces, enquanto o mel de melato é escuro, menos doce e com sabor mais complexo.
Na Europa, especialmente na Alemanha, o produto é valorizado como alimento funcional. Estudos apontam que ele pode conter até dez vezes mais sais minerais do que o mel comum, além de propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias e antibacterianas.
Esse cenário cria um paradoxo: o Brasil produz um dos méis mais raros do mundo, mas não o consome, enquanto o mercado europeu paga caro pelo produto.
Além das diferenças de sabor e composição, a raridade do mel de melato está diretamente ligada à sua produção restrita. Ao contrário do mel floral, que pode ser colhido várias vezes ao ano, o mel de melato depende de um ciclo bienal, clima seco e de uma área geográfica específica.
Apesar do sucesso no exterior, a atividade enfrenta desafios. A principal preocupação é a redução das áreas de bracatinga, que têm ciclo de vida curto e carecem de políticas de replantio. Sem essa renovação, toda a cadeia produtiva fica ameaçada.
Outro fator é o clima. Períodos de chuva intensa podem comprometer completamente a safra, tornando a produção ainda mais instável.
Para manter Santa Catarina como referência mundial nesse tipo de mel, especialistas apontam a necessidade de investimento em manejo florestal, incentivo à produção e valorização do produto no mercado interno.



