COLEÇÃO

Entre VHS e Blu-rays: a paixão que virou coleção em Santa Catarina

Michele Martins cancelou assinaturas digitais e transformou o amor pelos clássicos em um acervo impressionante

Entre VHS e Blu-rays: a paixão que virou coleção em Santa Catarina
Publicado em 28/02/2026 às 10:23

Em uma era dominada por plataformas de streaming, onde catálogos digitais parecem infinitos, uma catarinense decidiu seguir o caminho oposto. Aos 34 anos, Michele Martins cancelou todas as assinaturas de serviços de vídeo sob demanda e passou a dedicar seu tempo – e seu investimento – à própria coleção: mais de 1,5 mil filmes em VHS, DVD e Blu-ray.

Para Michele, mídia física e streaming podem coexistir, mas a escolha recente foi prática. “Eu estava só gastando dinheiro e tenho um monte de filme em casa”, explica. Segundo ela, pagar por plataformas enquanto mantém uma coleção extensa acabou se tornando desnecessário.

A discussão entre mídia física e streaming não é nova. Parte dos colecionadores ainda associa a consolidação da Netflix ao desaparecimento de grandes redes de locadoras, como a norte-americana Blockbuster. Michele, no entanto, afirma que sua motivação não nasce de rivalidade, mas do valor agregado que encontra nos DVDs e Blu-rays — especialmente os conteúdos extras, comentários de diretores e bastidores, ausentes na maioria dos catálogos digitais.

Nostalgia como ponto de partida

A paixão começou muito antes da popularização das plataformas digitais. No Sul de Santa Catarina, Michele cresceu frequentando locadoras com o pai e assistindo às sessões da televisão aberta. Uma tradição familiar marcante era gravar filmes exibidos na madrugada em fitas VHS. Muitos títulos que hoje fazem parte da coleção foram conhecidos dessa forma.

Apaixonada por clássicos dos anos 80 — especialmente produções de terror —, Michele decidiu, por volta de 2010, que queria ter esses filmes sempre à disposição. A dificuldade em encontrá-los impulsionou o início do acervo.

Durante anos, boa parte das compras foi feita nas Lojas Americanas, que até meados de 2018 ainda mantinham grande variedade de DVDs e Blu-rays lacrados. Com o declínio da venda física nas grandes redes, ela passou a buscar títulos em locadoras em encerramento, sebos e negociações online.

Raridades e compras por impulso

Com o crescimento da coleção, veio também o reconhecimento de que o colecionismo pode se tornar compulsivo. “Quando a gente começa a colecionar, é como se fosse um vício”, admite.

Entre as aquisições mais marcantes está o filme O Pentelho, estrelado por Jim Carrey. Michele pagou R$ 250 por uma edição rara em DVD. Apesar de o longa ter arrecadado cerca de US$ 100 milhões mundialmente, ficou aquém das expectativas do estúdio na época de seu lançamento.

Na coleção também há edições especiais e limitadas de clássicos do terror, como O Massacre da Serra Elétrica, cujo box hoje é avaliado em torno de R$ 1,5 mil no mercado de colecionadores. Mesmo diante da valorização, Michele afirma que não pretende vender suas cópias.

Da coleção ao YouTube

O sentimento de nostalgia levou à criação, em 2017, do canal Café Com Naftalina. Inicialmente voltado a temas ligados aos anos 80, o espaço passou a incorporar conteúdos sobre colecionismo conforme o acervo crescia.

Hoje, o canal funciona como ponto de encontro para entusiastas da mídia física. Nos comentários, seguidores trocam experiências, indicam raridades e até negociam títulos. Apesar de debates pontuais, Michele descreve a comunidade como colaborativa e unida.

Em um cenário onde sete em cada dez brasileiros afirmam assinar algum serviço de streaming, a trajetória da catarinense mostra que a cultura da mídia física não apenas resiste — como encontra novas gerações dispostas a mantê-la viva.