DEBATE
Mais um debate acalorado sobre gratificações marca sessão da Câmara de Indaial
Diogo Pinho pede reavaliação administrativa e não se esconde ao citar que assinou atos anteriores

A sessão da Câmara de Vereadores de Indaial, realizada na noite de quinta-feira (19/02/2026), foi marcada por um intenso debate sobre as gratificações pagas a servidores do Legislativo. O tema gerou embates diretos entre parlamentares, troca de acusações e questionamentos sobre coerência política e responsabilidade administrativa.
O primeiro a se manifestar foi o vereador Diogo Pinho, que fez um pronunciamento firme, afirmando que não tem “rabo preso com ninguém” e que foi eleito pelo povo. Ele destacou que a discussão não envolvia o Poder Executivo, mas sim o próprio Legislativo, onde, segundo ele, os vereadores possuem autonomia para promover mudanças.
Diogo convocou formalmente a Mesa Diretora para realizar uma reavaliação administrativa de todas as gratificações concedidas na Câmara, incluindo os próprios atos que assinou enquanto integrou a mesa na gestão passada. O parlamentar reconheceu que participou da aprovação de diversos atos de gratificação, e admitiu que pode ter errado ao não buscar um histórico mais aprofundado dos pagamentos já existentes.
Segundo ele, as gratificações vêm sendo pagas há mais de 15 anos — possivelmente até 20 — e houve, ao longo do tempo, um “empilhamento” de valores e penduricalhos. O vereador citou que os pagamentos ultrapassariam R$ 66 mil por mês e poderiam representar cerca de R$ 3,2 milhões ao longo de um mandato.
Ele também comparou os valores com gratificações do Executivo, que variariam entre R$ 1.500 e R$ 2 mil, enquanto na Câmara haveria casos que chegariam a R$ 7 mil e até R$ 18 mil. Questionou se isso configuraria meritocracia e sugeriu que, em vez de manter determinadas gratificações, poderia ser mais viável contratar três novos servidores com salário médio de R$ 4.500, acrescido de encargos, o que resultaria em aproximadamente R$ 21 mil mensais — valor muito inferior ao montante atual citado.
Presidente rebate e fala em incoerência
O presidente da Câmara, Valentim Blasius, respondeu imediatamente. Ele afirmou que os cálculos apresentados por Diogo estariam “equivocados” e que todas as informações estão sendo levantadas oficialmente.
Valentim destacou que possui levantamento de 14 atos de gratificação assinados por Diogo Pinho, afirmando que o vereador participou e concordou com todos eles. Segundo o presidente, não seria coerente considerar os atos corretos durante anos e agora classificá-los como errados.
O presidente também mencionou que a gratificação recentemente concedida — alvo indireto das críticas — teria sido resultado do deferimento de um requerimento de um servidor que era o único que não recebia o benefício. Ele ressaltou que a Câmara enfrenta deficiência de pessoal e que está em estudo a realização de concurso público.
Em tom crítico, Valentim questionou se, diante da alegação de erro, os membros da mesa deveriam devolver os valores pagos no passado, sugerindo que a responsabilidade seria coletiva.
Diogo reforça pedido e amplia críticas
Em nova manifestação, Diogo Pinho reafirmou que teve humildade ao reconhecer ter assinado os atos e que agora demonstra atitude ao pedir a reavaliação. Ele esclareceu que não são todos os servidores que recebem gratificação, agradecendo inclusive a correção feita por um assessor.
O vereador também citou que outros parlamentares vivem citando dificuldades financeiras enfrentadas pelo município, mencionando atrasos a fornecedores, mas que agora parecem fechar os olhos diante da questão das gratificações. Diogo pediu apoio dos colegas para revisar os pagamentos. Questionou ainda o posicionamento de vereadores que defendem economia, mas utilizam diárias, afirmando não ser contra o uso de diárias, desde que haja retorno em recursos e benefícios para a cidade.
Lúcio Vanderlinde defende coerência e fiscalização
O vereador Lúcio Vanderlinde também entrou no debate. Ele respondeu às críticas sobre uso de diárias, afirmando que suas viagens a Brasília e Florianópolis tiveram caráter técnico e resultaram na abertura de uma CPI da merenda, cujo relatório teria 85 páginas e apontaria indícios de crime e sobrepreço estimado em R$ 3,5 milhões.
Lúcio defendeu que quem trabalha pode receber gratificação, mas ressaltou que eventuais irregularidades devem ser fiscalizadas. Concordou com a revisão, porém afirmou que quem assinou no passado deve assumir responsabilidade, não apenas pedir desculpas.
Flavio Molinari critica clima político
O vereador Flavio Molinari adotou outro enfoque, criticando o ambiente político e as constantes disputas públicas. Ele declarou que perdeu a vontade de frequentar a Câmara (Não a vontade de trabalhar para o povo) diante do que classificou como “baixaria” e disputas por holofotes.
Molinari defendeu coerência nas críticas à administração municipal, citando problemas históricos como condições das ruas e impactos de chuvas frequentes. Também criticou vereadores que, segundo ele, aparecem apenas em eventos para foto, mas não acompanham de forma constante.
Debate deve continuar
A discussão não foi encerrada na sessão e deve avançar com o levantamento oficial dos números pela Mesa Diretora. A polêmica expôs divisões internas, levantou questionamentos sobre gestão administrativa e colocou em pauta a necessidade de maior transparência e critérios objetivos para concessão de gratificações no Legislativo de Indaial.



