CIGARRO ELETRÔNICO

Vício silencioso preocupa especialistas: uso de cigarros eletrônicos cresce entre jovens em SC

Uso precoce tem causado lesões pulmonares e problemas de desempenho físico entre adolescentes

Vício silencioso preocupa especialistas: uso de cigarros eletrônicos cresce entre jovens em SC
Foto: Patrick Rodrigues, NSC Total
Publicado em 26/11/2025 às 13:05

Vape, pod, pen. Embora os nomes variem, o problema é o mesmo: o uso de cigarros eletrônicos tem ganhado espaço entre adolescentes e jovens em Santa Catarina e despertado preocupação entre profissionais da saúde. Mesmo com a comercialização proibida no Brasil desde 2009, aparelhos conhecidos como Dispositivos Eletrônicos para Fumar (DEF) circulam com facilidade em diversas cidades do Estado, expondo usuários a substâncias tóxicas que podem gerar dependência e graves complicações respiratórias.

Isadora Alves e Emily Severiano, ambas com 18 anos, relatam ter iniciado o uso por volta dos 16 anos — a primeira influenciada por amigos, e a segunda após contato inicial com o narguilé. Hoje, dizem fumar apenas em ocasiões sociais, mas reconhecem que os riscos e o custo financeiro do vício causam preocupação. Emily, que tem asma, afirma sentir dificuldade para correr, episódios de dor no peito e falta de ar durante gripes ou resfriados. Isadora chegou a enfrentar meses de tosse persistente, sem diagnóstico conclusivo.

Segundo o pneumologista Roger Pirath Rodrigues, do Hospital Universitário da UFSC, esses sintomas são comuns entre usuários de cigarros eletrônicos. Ele cita um caso de internação por pneumonite associada ao uso frequente de vape. Casos semelhantes têm sido observados com maior frequência, especialmente entre adolescentes. Um levantamento nacional aponta que um em cada nove jovens faz uso de algum tipo de cigarro eletrônico.

O impacto também tem chegado às escolas. Em uma unidade estadual de Massaranduba, no Norte catarinense, uma turma com alunos entre 14 e 15 anos teve mais da metade dos estudantes identificada como usuária. Após um projeto educativo com apoio de profissionais e pesquisas, cerca de 150 dispositivos foram entregues voluntariamente pelos alunos. Enquanto alunos como Clara e Julia se chocaram ao descobrir os componentes tóxicos e cancerígenos presentes nos produtos, Nicolas e João, usuários desde os 14 anos, relataram perda significativa de desempenho em atividades esportivas.

Além da nicotina, que pode ter concentração até seis vezes maior que a de cigarros tradicionais, estudos realizados pela UFSC, em parceria com a Polícia Científica, identificaram substâncias semelhantes à anfetamina em amostras apreendidas em Joinville, o que agrava os riscos. A professora Camila Marchion, especialista da universidade, lembra que o vape não substitui o cigarro convencional — pelo contrário, pode atrair jovens que nunca fumaram.

Os efeitos a longo prazo ainda estão em estudo, mas já se sabe que os DEFs podem provocar EVALI (lesão pulmonar grave), bronquite, asma, quadros inflamatórios e risco precoce de DPOC. Para menores de idade, o impacto é ainda maior, podendo comprometer atenção, aprendizado e controle de impulsos.

A escola de Massaranduba ampliará as ações de conscientização nos próximos meses, envolvendo também famílias. Após a entrega voluntária dos dispositivos, a Polícia Militar realizou a apreensão dos materiais.

Profissionais e educadores reforçam a necessidade de alerta permanente. De acordo com os especialistas, evitar o primeiro contato continua sendo o principal caminho para a prevenção do vício.