ESPECIAL DIA DO PROFESSOR
“Estudar é o ato mais revolucionário”: a voz inspiradora da professora e poeta Marcia Friggi
Em entrevista especial, Marcia Friggi reflete sobre o papel do professor, a paixão pela literatura e o impacto de sua trajetória na vida dos alunos

A paixão pelo ensino e pela literatura caminham juntas na vida da professora Marcia Friggi, que também é poeta e autora de dois livros: “Lâmina” (2019) e “O Cal da Terra” (2025). Com uma trajetória marcada pela sensibilidade e pelo compromisso com a educação, Marcia compartilha nesta entrevista especial do Mais Notícias do Vale um pouco de sua história, dos desafios e da beleza de ensinar.
Entrevista
MNDV: O que te motivou a seguir a carreira de professora e escolher atuar justamente com alunos do Fundamental II e do Ensino Médio?
Marcia: Desde a infância essa profissão me encantava. Achava mágico saber ler e sofri ter que esperar a idade certa para entrar na escola e poder, finalmente, me alfabetizar. Depois, meu pai foi obrigado a colocar um quadro de professora imenso numa sala porque eu riscava com giz o chão da minha mãe, brincando de dar aula. Com o quadro, dei aulas para minhas bonecas e as “vítimas eventuais” que eram as amigas que iam me visitar. Eu gosto de lecionar no Ensino Médio, mas é no Fundamental que mais me realizo. É nesse momento da vida dos alunos que nós mais conseguimos influenciar positivamente, como despertar o hábito pela leitura que faz toda a diferença na vida de um estudante e de qualquer pessoa.
MNDV: Essa é uma fase marcada por muitas descobertas, dúvidas e mudanças nos estudantes. Como é lidar com adolescentes e jovens nessa etapa da formação?
Marcia: Não é fácil lidar com jovens e adolescentes, é verdade, mas a experiência nos ensina a tornar a relação mais leve, afinal, somos nós os adultos na sala. Na maior parte do tempo, conseguimos estabelecer um bom clima e relacionamento.
MNDV: Quais são os maiores desafios e também as maiores recompensas de trabalhar com essa faixa etária?
Marcia: Os maiores desafios são despertar o interesse dos alunos e, especialmente, ensinar a escrever bem, interpretar e desenvolver o hábito da leitura. Talvez o advento da internet tenha ajudado a empobrecer o vocabulário dos alunos devido ao fato de passarem mais tempo na internet e muito menos lendo.
MNDV: De que forma a tecnologia e as novas metodologias de ensino têm impactado o seu trabalho em sala de aula e o interesse dos alunos pelo aprendizado?
Marcia: A questão da tecnologia já foi revista positivamente. Ela é importante para auxiliar nas atividades pedagógicas, sem dúvida. No entanto, há um movimento mundial para afastar crianças e adolescentes das redes, por tudo que se observou de negativo com o excesso de telas nessa idade. A lei da proibição do celular foi muito positiva, os alunos estão mais atentos e socializando mais com os colegas.
MNDV: Há alguma história ou experiência com uma turma ou aluno que tenha marcado sua trajetória como educadora?
Marcia: São muitas as histórias que marcaram. Especialmente as experiências nas quais minhas aulas e minha paixão pela literatura conseguiram tocar os alunos a ponto de, além de leitores, passarem também a escrever. Alguns alunos já me procuraram pelas redes, mesmo depois de deixar a escola, para me mostrar seus poemas e textos — isso é muito gratificante.
Outro caso marcante foi a inclusão muito bem-sucedida de uma menina com surdez severa. Ela foi minha aluna do sexto ao terceirão. No sexto ano, eu cedia uma hora aula por semana para que a professora intérprete de Libras ensinasse a linguagem de sinais para a turma. Em pouco tempo, todos conseguiam se comunicar com ela. Hoje, essa aluna faz faculdade na FURB, e isso me enche de orgulho.
MNDV: Como você enxerga o papel do professor hoje, em um tempo de tantas transformações sociais, culturais e comportamentais entre os jovens?
Marcia: Mais do que nunca, num mundo em transformação, o papel do professor é fundamental. Não apenas no que se refere a ensinar os conteúdos, mas orientar e “cuidar”. É na escola, é sempre um professor ou professora que percebe quando um aluno precisa de óculos. É na escola que se percebe sinais de violência doméstica, e nossa mediação nessas situações pode modificar a vida do aluno.
MNDV: O que mais te motiva a continuar na profissão, mesmo diante das dificuldades e da desvalorização que muitos educadores enfrentam?
Marcia: Nunca enxerguei a possibilidade de abandonar a profissão, mesmo quando nos sentimos desmotivados pelo desrespeito e desvalorização que, muitas vezes, parte dos que deveriam nos proteger e valorizar — os governos, no caso. A certeza da importância social do magistério foi sempre o que me motivou a continuar.
MNDV: E para encerrar: qual mensagem você deixaria para seus colegas e também para seus alunos, sobre o poder da educação em transformar vidas?
Marcia: Para os colegas, eu diria que nunca percam de vista a importância social da profissão — o quanto são importantes e agentes de transformação. Para os alunos, repito o que sempre digo: aproveitem a oportunidade de estudar. A educação tem o poder de modificar destinos, especialmente quando se nasce pobre. Estudar é o ato mais revolucionário!
Com a sensibilidade de quem transforma palavras em poesia e vidas em aprendizado, a professora Marcia Friggi representa a força e a inspiração de todos os educadores que acreditam no poder da educação como caminho de transformação.



