DESOBEDIÊNCIA
Desobediência no Vaticano? Becciu, o cardeal condenado que mira o conclave
Becciu quer reaver status de cardeal, retirado pelo Papa Francisco em meio a denúncias de corrupção.

Giovanni Angelo Becciu, 76 anos, foi de aliado próximo a uma das maiores decepções do Papa Francisco. Condenado por corrupção em um dos julgamentos mais marcantes da história recente da Igreja, o cardeal italiano agora desafia o Vaticano ao reivindicar o direito de votar no conclave que escolherá o novo Papa, após a morte de Francisco nesta segunda-feira.
Apesar da condenação a cinco anos e meio de prisão e da perda de direitos cardinais em 2020, Becciu afirma que nunca foi formalmente excluído do colégio cardinalício e sustenta que ainda pode participar da votação que definirá o próximo líder da Igreja Católica.
Carreira diplomática e ascensão no Vaticano
Natural da Sardenha, Becciu foi ordenado padre em 1972. Ingressou no serviço diplomático da Santa Sé em 1984, atuando em missões por países como Sudão, Reino Unido, EUA e França. Foi nomeado núncio apostólico em Angola, São Tomé e Príncipe e Cuba, antes de ser alçado à Secretaria de Estado, onde chegou à posição de substituto — o número dois da pasta.
Sob Francisco, tornou-se cardeal em 2018 e assumiu a liderança da Congregação para as Causas dos Santos, órgão responsável por avaliar beatificações e canonizações. Sua trajetória de prestígio, porém, foi abalada por uma série de denúncias que culminariam em um processo histórico dentro do próprio Vaticano.
O escândalo de Londres
Becciu foi acusado de usar fundos do Óbolo de São Pedro — doações dos fiéis supostamente destinadas a obras de caridade — para comprar um prédio de luxo em Londres. O investimento gerou prejuízos milionários à Igreja e expôs uma complexa teia de negociações obscuras envolvendo intermediários, contratos irregulares e transferências de grandes quantias.
O julgamento, que durou mais de dois anos e contou com 86 audiências, terminou em 2023 com sua condenação e multa de 8 mil euros. Foi o mais alto funcionário da Igreja a enfrentar o tribunal civil do Vaticano.
Entre os envolvidos, estava Cecilia Marogna, apelidada pela imprensa italiana de “a dama do cardeal”. Ela teria recebido 575 mil euros para missões humanitárias, mas gastado parte dos recursos em artigos de luxo e estadias em hotéis de alto padrão.
Gravação secreta e tentativa de defesa
Durante as investigações, veio à tona uma gravação telefônica em que Becciu tenta convencer o Papa Francisco de que este havia aprovado operações financeiras ligadas ao resgate de uma freira sequestrada por extremistas no Mali. A conversa, feita sem consentimento do Papa e divulgada pela imprensa italiana, causou enorme constrangimento no Vaticano.
No diálogo, Francisco responde que se lembra “vagamente” e pede que Becciu envie sua pergunta por escrito — o que foi interpretado como uma recusa sutil de endossar a versão do cardeal.
A tentativa de retorno
Com a morte de Francisco e o anúncio do novo conclave, Becciu tenta recuperar protagonismo. Ele foi convidado para as Congregações Gerais, etapa prévia à eleição papal, e afirma que seu título de cardeal nunca foi formalmente retirado.
— No último consistório, o Papa reconheceu minhas prerrogativas cardinais intactas — disse Becciu ao jornal Unione Sarda. — Não houve vontade explícita de me excluir do conclave, nem pedido de renúncia por escrito.
Cabe agora à Congregação Geral decidir se ele poderá, de fato, participar da eleição do novo Papa. Sua presença, contudo, já provoca divisões dentro do Sacro Colégio, especialmente entre os que criticam a linha reformista de Francisco e veem em Becciu uma figura simbólica de resistência.
Mesmo após os processos, Francisco manteve gestos ambíguos de proximidade: em 2021, por exemplo, celebrou a Missa da Ceia do Senhor na residência de Becciu, enquanto este ainda era investigado.
Se autorizado a participar do conclave, Becciu poderá ser um fator de desequilíbrio e tensão em um momento decisivo para o futuro da Igreja Católica.



